Crítica | Drake - More Life

Crítica | Drake - More Life

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álbum disponível no fim do post

O que é sucesso quando se fala em música? Pelo lado das vendas e da popularidade, o 2016 de Drake foi espetacular. "Views" foi o terceiro álbum mais vendido do mundo e quebrou todos os recordes de streaming, com 'One Dance' terminando o ano como seu maior hit. Agora, se entrarmos mais a fundo no que a palavra sucesso pode significar, e pensarmos em impacto e influência por conta da qualidade da música em si, "Views" foi uma recaída.

Mas esta é uma review de "More Life", a nova playlist de Drake, não um álbum, não uma mixtape, uma playlist. O que faz sentido, por que o que funciona em "More Life" não é sua estrutura, e também não é o fato de se terem 22 insistentes músicas em mais de uma hora, e sim as individualidades que podem ser tiradas disso. Esqueça a forma convencional de se ouvir um álbum do começo ao fim, ou o prazer de ouvir uma mixtape que claramente não foi organizada e trate isso como uma playlist, que seu valor pode ser aproveitado da melhor forma.

Não faz sentido você ouvir "Passionfruit" e ter que esperar por "Jorja Interlude" para poder ouvir "Get it Together". Ou ter de passar por mais de meia hora até poder finalmente ouvir "Glow" e "Fake Love". Não há nenhuma sequência realmente justificável, é apenas uma playlist de músicas próprias, que tem como intenção talvez algo não muito louvável. Para um artista tão popular e com um talento comprovado, Drake parece um pouco desesperado em se utilizar do auge de sua popularidade para tentar esticá-la ainda mais, mesmo que isso signifique ignorar completamente sua obsessão com o trono do rap, que funciona muito mais por qualidade do que quantidade. Curiosamente, fazendo isso, atirando músicas aqui, ele nos lembra de muitas habilidades que foram esquecidas em "Views". 

Após sete álbuns, é muito difícil de esperar que ele saia de sua zona de conforto, mas aqui ele expande ainda mais sua afeição pela world music, e ainda combina isso fazendo algo que pouco fez no passado, deixar seus convidados ditarem o ritmo. "Get It Together" é maravilhosa com seus tambores e teclado que criam uma atmosfera confortável para os vocais de Jorja Smith, regados a jazz. Na linda "4422" só se ouve a voz de Sampa, um teclado afetado e as mesmas letras que resumem Drake, perdão e a repetição do mesmo erro novamente. "Portland" é parecida nesse quesito, com Travis Scott comandando o show, mas apesar de ser uma música que funcione para ele, destoa muito de tudo aqui. 

Particularmente, não ligo para faixas como "Gyalchester", "Freesmoke" e "No Long Talk". São todas OK, algumas até interessantes, mas em "If You're Reading This It's Too Late" ele fez músicas com o exato mesmo estilo, estética e conceito... e de forma melhor. O forte de "More Life" não está nas suas habilidades como Rapper, Drake não é e nunca vai ser top 2 como ele fala em "Gyalchester", o forte está na persona Drake, que criou um estilo próprio em cima da desconstrução de gênero proporcionada por Kanye West em 2008 com "808 & Heartbreak". O mesmo Kanye que está em "Glow", uma faixa que lembra positivamente o senso incompleto de "Pablo", mas negativamente a unilateralidade de "Views". Pegue como exemplo "Teenage Fever", quantos Rappers poderiam cantar daquele jeito e ainda encaixar aquelas letras sobre amor em uma música e ainda dizer que está fazendo Hip-Hop? . 

Ele ainda consegue sustentar versos e canções por ele mesmo. "Blem" incorpora muito bem todos esses elementos e tem um flow perfeitamente funcional. "Fake Love" não é novidade, um dos grandes hits da troca de ano, e uma das 100 (talvez 50?) melhores músicas de 2016, e seu encaixe aqui reforça a ideia de playlist. Ainda assim, seus crossovers entre R&B, rap e pop sempre foram seu ponto alto, e recorrer a eles de novo não é uma ideia ruim. É mais cedo, na terceira música para ser mais exato, que ele encontra seu auge. "Passionfruit" é uma verdadeira joia, um dos melhores momentos de sua carreira e o exemplo perfeito do que Drake é. A mesma leveza de "Hold on We're Going Home", a mesma batida com influência tropical típica de "Hotline Bling", "One Dance", etc e suas mesmas reflexões sobre o amor e a vida. Uma música excepcional. 

São nesses momentos, quando ele abraça quem realmente é, que "More Life" supera "Views". Seu valor de repetição realmente não é alto, mas definitivamente merece ser ouvido e há muito o que ser analisado. Enquanto não é nenhum indicativo de que Drake esteja mais próximo de ser a lenda que já se tornou por conta de sua popularidade, é o suficiente para deixarmos um pouco de lado os erros de seu último trabalho e aproveitarmos o novo. Mesmo que uma pausa em sua carreira agora não seria nada mal.

7.3

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