Crítica | Pusha T - Daytona

Crítica | Pusha T - Daytona

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Artistas como Pusha T são como artefatos históricos. Seu brilho empoeirado pode não parecer tão atrativo frente à variedade de cores que as bijuterias de hoje em dia oferecem, mas sempre que você decide prestar atenção, aprecia o valor que traz consigo.

"Daytona" é o terceiro álbum de Pusha T, que, caso você não saiba, é um dos rappers mais consistentes das últimas duas décadas, desde sua época de Clipse até o famoso verso em "Runaway" que alavancou sua carreira solo. Foram três anos de espera desde "King Push - Darkest Before Down: The Prelude", o álbum que serviu como uma preparação para sua, até então, magnum opus. 

Encarando a realidade, Terrence LeVarr Thornton tem 41 anos e nunca teve um sucesso comercial estrondoso. Seu primeiro álbum de estúdio, o ótimo "My Name Is My Name", atingiu o quarto lugar na Billboard 200, e essa foi sua colocação mais alta na parada norte-americana e isso talvez continue assim. A grandeza que Pusha T tanto fala e se gaba aqui funciona de forma diferente, é quase como um jogador que nunca conquistou um título da NBA justamente por querer fazer as coisas da sua maneira, sem se dobrar à tendências.

"Daytona", que tem apenas 21 minutos de duração - indo contra a regra de álbuns de rap de terem pelo menos 15 afim de atrair mais streaming -, é a culminação do estilo de vida que ele escolheu. E nesse estilo, ele é rei absoluto. 

Entre as maiores narrativas de sua carreira está, além das beefs com Lil Wayne e Drake - que, apesar de menos talentosos, atingiram alturas que ele nunca sequer vislumbrou -, sua bem sucedida parceria com Kanye West, que o permitiu ter espaço para realizar sua arte da maneira como quer (e também o persuadiu a trocar a capa do álbum para esta foto do banheiro de Whitney Houston. Daqui a 20 anos, quando novos rappers mais preocupados em vender do que marcar estiverem por aí, seu verso em "Runaway" ainda será reverenciado, e é esse o sucesso que Pusha T procura. 

Ainda não é certo se o álbum é um produto de anos de trabalho, cortado e remontado diversas vezes, ou se ele vem diretamente do novo capítulo de isolamento criativo de Kanye West, desta vez na fria Wyoming, Utah. O projeto é inteiramente produzido por ele, centrado em torno de samples soul e batidas minimalistas, que mais do que qualquer outra coisa servem como acompanhantes perfeitos para as tremendas habilidades de Pusha T. 

É curioso. Se você é um ouvinte assíduo de rap deve saber que Jay-Z e Kanye West, donos do crossover musical da década ("Watch The Throne") e de uma das amizades mais icônicas da música, tiveram um 2017 bastante conturbado. Porém, aqui a influência de Jay-Z simplesmente move o álbum, com o maior rapper de todos os tempos (yes, we said it a lot of times) tendo atingido tudo na sua vida sem nunca negar suas raízes sendo o modelo de carreira que T quer seguir. 

Pegue a excelente abertura, "If You Know You Know", onde ele fala criptiticamente sobre seu passado como traficante - o assunto mor de sua carreira - critica rappers e trappers por não fazerem rap de verdade, e compara o jogo das drogas com esportes como tênis e basquete. O próprio título da faixa é uma alusão: se você não viveu o que ele viveu, não pode realmente apreciar o que ele está falando. As comparações seguem em "The Games We Play", faixa que é semelhante à "Things That U Do" (Jay-Z, Mariah Carrey) sonoramente e até interpola "Politics As Usual" (Jay-Z) em um momento. As cordas quebradas e o jazz esparso lembram diversos trabalhos de Jigga, e aqui T se utiliza de uma infinidade de metáforas para exemplificar como sua vida de traficante se assemelha a sua vida de milionário. 

Seu principal assunto nunca realmente muda e, enquanto ele não consegue imprimir uma grande variedade de elementos à ele, suas técnicas de rima e linguagem figurativa são umas das mais ricas no cenário atual. Em cada uma das faixas ele ataca a brandeza do hip-hop atual e a ignorância da sociedade em aceitá-lo, mas é 100% convicto de que as histórias do gueto nunca serão esquecidas dentro do gênero. 

A produção entende muito bem todas as letras, e a química dos dois artistas excede a cada momento. "Hard Piano" começa, obviamente, com um piano em notas baixas, com batidas intercaladas com estalares de dedos, uma atmosfera mais pesada para uma performance mais pesada. A cadente "Come Back Baby", que tem um sample perfeito como refrão, é uma letra de amor ao tráfico e contextualiza como ele está diretamente ligado à comunidade negra e a fé.  "Your life ends up a quote nigga / The good die young, all dogs go to heaven / It's really just momma's falling out on the reverend". 

A construção do álbum permite que diversos assuntos sejam sequenciados da melhor maneira, sendo que "Santeria" mantém a religiosidade. A faixa evolui conforme a narrativa de T se modifica, começando leve e terminando pesada, mas fazendo uso genial do silêncio quando é contada a história de um amigo de Pusha que faleceu recentemente. Enquanto no começo ele declara que o Senhor é seu pastor, mas ele não é uma ovelha e sim um padre com os demônios acordados dentro de si, no final ele é quase profano ao falar que a morte e ter um padre falando em seu funeral é mais barato do que pagar uma saída da cadeia. 

Não há nenhum momento aqui que se destaque em relação aos outros, não há um hit, ou um banger, não há nenhuma faixa que deva se tornar um clássico, mas isso não tira o brilho deste álbum. Assim como seu artista, "Daytona" entende o tipo de produto que é, funcionando como um ótimo projeto que não peca por não ser ambicioso em excesso.

Talvez a faixa que melhor exemplifique a parceria entre ambos está na, já famosa, "What Would Meek Do", onde Kanye também rima. Seu verso funciona como uma calorosa rechaçada à imprensa, que tenta vilanizar tudo o que ele faz ao tornar tudo um debate, e atinge seu clímax quando ele finalmente se faz claro sobre toda a função com o sr. Trump. "Se você não estiver dirigindo, enquanto negro, eles te param? O boné MAGA (slogan da campanha de Trump) vai me deixar escapar como em um drive-thru?".

Então "Daytona" chega ao fim com sua faixa mais polêmica. "Infrared" é introspectiva e conta com uma produção assombrosa. Nela Pusha menciona como o hip-hop sempre deu preferência ao comercial, desde a época onde Will Smith tinha um Grammy e Jay-Z não. É aqui onde ele ataca Lil Wayne e Drake, a indústria como um todo e reconhece que nunca vai ser tão popular por conta do público que ouve rap em 2018. Talvez a linha mais duvidosa de todo o álbum seja quando ele referencia o filme francês, "Intocáveis", com a escolha de palavras sendo ambíguas demais para se descartar a pior interpretação delas. São pequenos e esparsos momentos onde Pusha perde uma bar ou rima algo de gosto duvidoso, não o suficiente para atrapalhar o projeto. 

Mais importante do que sua excelente habilidade em apontar os erros ao seu redor é sua consciência quanto ao estilo de arte que quer proporcionar. Pusha T sabe o que os verdadeiros fãs de rap querem e sabe que eles não se importam de esperar. Graças a isso, sempre que ele tiver algo a dizer, vale a pena ouvir.

8.5 

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