Crítica | Outkast - Speakerboxxx / The Love Below

Crítica | Outkast - Speakerboxxx / The Love Below

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Outkast, o duo mais comentado dos anos 2000 e um dos atos mais influentes e populares de sua época, lançavam em “Speakerboxxx / The Love Below” seu último grande álbum. Em uma era (mais de 10 anos atrás, você está velho, eu quase) onde álbuns duplos eram apostas cegas, como se Lennon e McCartney tivessem cada um decidido fazer sua metade de acordo com o que queriam na época, Big Boi e André 3000 separam o conceito de Outkast para algo muito mais abrangente.

A primeira metade é de Big Boi, e a coesão de 'Speakerboxxx' é o que o faz funcionar por conta própria. Sua produção é pesada, um Hip-Hop urbano que as vezes flerta perfeitamente entre o mundano e às letras viajantes de Big Boi. Ele é um gênio e isso é muito esquecido, suas rimas e Flow estão entre os melhores do jogo, e liricamente ele consegue tornar seus conceitos algo quase universal, uma reflexão quanto à sociedade, um tema muito comum do duo que é dissecado aqui. O começo é muito bom, as letras de Big Boi são bem englobadas pela produção e seus temas são interessantes. Suas visões sobre família na tocante ‘Unhappy’ são bastante proeminentes, seus problemas em ‘Roster’ convincentes, e a forma como ele trata sua imagem em ‘Bowtie’, ironicamente inteligente. Mas esse brilho se ausenta e poucas vezes entre ‘Bust’ e ‘Flip Flop Rock’ a produção combina, ela é perfeitamente funcional, mas perde muito da sua eficácia e para de encaixar com suas rimas, que mesmo raramente sendo menos do que excepcionais, perdem muito apelo. Admiro o toque religioso em ‘Church’ e a participação de Bamboo (filho de Big Boi, sim seu nome é Bamboo) em ‘Bamboo’ é divertida, mas é apenas em ‘Reset’ que o álbum retoma o Flow inicial, com seu som ambiente e a excelente colaboração com Cee Lo Green.

Se clima musical é um tópico, poucos são melhores do que o duo pode fazer quando juntos. Há espaço para André 3000 transformar ‘GhettoMusick’ em uma das músicas mais estranhas já lançadas, apenas para Big Boi entrar perfeitamente com seu verso e apenas aumentar seu absurdismo. Mas a melhor música da primeira metade é facilmente ‘The Way You Move’, onde Big Boi não contempla, se arrepende ou comenta seus problemas, ele apenas “gosta do jeito como você se move” e transforma a música em um simples ato, mas subjetivamente profundo e relacionável sobre estar em uma boate olhando aquela garota.

Mas confesse, quando se fala em Outkast o principal motivo de todos amarem tanto sempre foi a excentricidade de André 3000. Ele é muito mais simples que Big Boi, sendo que ‘The Love Below’ fala única e exclusivamente de amor. Ele tem uma visão fechada? Com certeza não, André 3000 abre o amor em todas as suas dobras, divaga sobre batidas, cria peças excepcionais de Jazz, abusa do Funk e é tão eclético como talvez Prince tenha sido. “I don’t want to look too fast but, can’t resist your sexy ass, just spread” e como isso é um bom assunto para um Rap com tratamento de Jazz, nunca saberemos. Ele as vezes não precisa de letras, como em ‘My Favorite Things’ e em outras apenas descreve situações como levantar da cama para fazer um café. O casamento de Drácula é estranhamente interessante, e a aparição de Norah Jones em ‘Take Off Your Cool’ é maravilhosa. Tudo é controlado por ele, um trabalho fluído e que pode ser apreciado em quase todos os seus detalhes, sem nunca perder o ritmo.

Se ‘The Way You Move’ e seu som infeccioso chamam a atenção na primeira metade, aqui temos dois destaques e eles vem um após o outro. A posterior no caso é ‘Roses’, mas ela tem a participação de ambos, o que, graças à Big Boi torna toda a conversa sobre calculadoras de ouro, acidentes de carro, caras de verdade se relacionando com garotas de marte e sobre como Rosas cheiram a cocô em uma música completa, louca, mas precisa. A que vem antes dela? Uma das melhores músicas do nosso tempo, ou você é aquela pessoa imune à ‘Hey Ya’?

Há simplesmente tudo aqui, Rock, Indie Rock, Funk, Soul, palmas, um coral, e tudo isso sem deixar de ser extremamente Pop. As letras de 3000 podem ser preocupantes pela forma como o relacionamento contado pode estar se finalizando, mas seus vocais são felizes e vibrantes, e de acordo com o próprio, uma celebração de como homens e mulheres se relacionavam nos anos 2000. Com todos os arranjos de uma música retrô, mas concebida de uma forma que parece nunca envelhecer, ‘Hey Ya’ é uma daquelas músicas feitas para serem eternas.

Outkast sempre impressionou pela sua diversidade e capacidade de nos surpreender. Esse foi seu penúltimo álbum e um presente para a música em geral. Há sim músicas menos imponentes, ou menos interessantes, mas são 39 faixas, muitos clássicos possuem erros com menos da metade disso. Pela primeira vez separando os talentos, mas sem nunca perder a essência, ‘Speakerboxxx/The Love Below’ é um dos últimos grandes álbuns duplos, e talvez não seja uma obra prima pelo simples fato de que Big Boi e André 3000 são ótimos individualmente, mas quase incomparáveis juntos. Adicione ‘Hey Ya’, ‘Roses’ e ‘Spread’ à Speakerboxxx, faça alguns pequenos cortes e deixe Andre aplicar um pouco do seu Jazz, e quem sabe ‘Stankonia’ não seria mais o melhor álbum do grupo. Se ‘Speakerboxxx’ é um 8,4 e ‘The Love Below’ um 9,0, é justo que sua combinação receba uma nota ainda maior.

9.2

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