Crítica | James Blake - Assume Form

Crítica | James Blake - Assume Form

Desde quando fui informado pela primeira vez de que o novo projeto de James Blake seria intitulado “Assume Form”, já previ o que viria pela frente. James sempre foi um músico e compositor respeitado pela crítica e pelos músicos com que faz colaborações e produções. Mas nunca teve a projeção global de hits que é quase obrigatório nos dias de hoje.

“Assume Form” é um disco pop. James Blake tenta ao máximo deixar suas músicas palpáveis e de fácil entendimento; o que é um fato novo, tendo em vista que nos últimos projetos a maioria das músicas foram construídas em cima de jams, as vezes até em cima de uma frase só, e com mudanças bruscas de tempo e harmonia.

Não me entendam mal, não é como se o álbum não tivesse nenhum desses elementos que deixam a música mais dinâmica e ativa. Mas é como se o foco principal aqui fossem as canções em si, as progressões, a dinâmica “verso-refrão-outro”, e a escolha minuciosa de palavras; além do mais, James nunca foi tão direto com as palavras. “Power On” e “Don’t Miss It” falam sobre ansiedade, fobia social e egomania de forma aberta, quase simplória demais.

Eu, como um grande fã de James Blake, desde o anúncio do disco, procurei informações, afinal, essa é hora de botar todo aquele conhecimento quase inútil que você tem sobre seu artista favorito em prática. A tracklist continha nomes já conhecidos, músicas que já foram apresentadas antes, ao vivo ou até mesmo como single (“Don’t Miss It”). E algumas participações já tiveram teasers divulgados anteriormente, “Where’s The Catch” com Andre 3000 já tinha um vídeo com qualidade suspeita divulgado na internet logo no começo de dezembro.

Tudo dava a entender que, apesar de ser uma tentativa de pisar no mainstream, o disco teria a aura já característica dos discos de James, músicas mais escuras, acordes menores, um álbum pop, mas low-key e introspectivo. Estávamos todos errados, “Assume Form” é a libertação de James do esteriótipo de compositor triste ou sadboy. É também um disco esperançoso, devaneador; Blake dedica grande parte dele a sua namorada de longa data, a atriz de “Good Place”: Jameela Jamil.

A faixa título, que abre o disco, é talvez a faixa que mais lembra os discos anteriores, preenche todos os requisitos de uma faixa de abertura de um disco de Blake: loop de piano, troca de tempo e uma letra altamente introspectiva. James canta sobre assumir uma forma, e ser mais acessível, uma clara alusão a estratégia desse disco. O tímido instrumental dá lugar a um outro sampleado com um coral de vozes agudas.

Now you can feel everything
Doesn’t it get much clearer?
Doesn’t it seem connected?
Doesn’t it get you started?
Doesn’t it make you happier?
Doesn’t it feel more natural?
Doesn’t it see you float?
— https://genius.com/James-blake-assume-form-lyrics

Logo após a boa, porém nada demais, faixa inicial, vem a primeira participação entre várias nesse disco: Travis Scott e Metro Boomin’ ajudam James a construir algo inédito até então. Nem nas faixas onde participou no próprio disco de Scott ou no disco de “Pantera Negra”, James flertou tanto com o mainstream. “Mile High” é uma faixa de trap, Travis canta, não rima, e tem o centro das atenções durante o primeiro terço da música. James recupera o espaço central no terço final onde copia o flow do rapper e canta junto com ele. James construiu toda a harmônia e Boomin’ deu vida aos hi-hats de trap que dão direção a música.

As participações continuam em alto nível, Boomin’ dá continuidade a estética low-key trap da segunda faixa e junta forças com Moses Sumney em “Tell Them”, aqui, sinceramente, eu não relutaria em acreditar que era James fazendo participações em um álbum de Metro Boomin’, além de algumas coisas na percussão e conjunto de cordas da faixa, eu não consigo ver nada característico de James na produção, total mérito de Boomin’ e Sumney que dominam a faixa com precisão angelical nas notas altas.

Falando em cordas, tenho quase certeza quando falo que é a primeira vez que James produz usando-as. Um conjunto de violinos quase dignos de uma produção de George Martin em algum álbum Beatle abrem a quarta faixa: “Into The Red”, uma das faixas mais introspectivas do disco, se não a mais. James constrói uma tensão perfeita nos versos indo em direção ao outro da música. “She saw every hand in my pocket / She was her gold rush / She watched me lose face every day / Rather than lose me.” Uma declaração quase desesperada de James para Jameela, a primeira de algumas nesse álbum.

Pensem em combinações perfeitas: arroz e feijão, Rachel e Chandler, Xavi e Iniesta… Rosalía e James Blake. As vozes dos dois se juntaram num casamento tão perfeito que eu não me importaria nenhum pouco se o próximo projeto de ambos fosse em conjunto. “Barefoot in the Park” é um dos momentos mais inspirados no álbum, a produção de Blake é quase angelical nos momentos em que Rosalía canta. A química dos dois é inegável e a faixa é quase perfeita.

“Can’t Believe The Way We Flow” já era uma velha conhecida dos fãs, e finalmente ganhou uma versão de estúdio que não desapontou. Pouco muda da versão ao vivo para a de estúdio: o sample ganha mais força, a música em si aparenta ficar um tantinho mais rápida, mas em cima de tudo isso: ganha um outro lindo no final da música, de confundir o cérebro do ouvinte.

Fragmentadíssima e linda, “Are You In Love” vem na sequencia pra mais atualizações sobre o relacionamento do casal mais talentoso de L.A. James, realmente evoluiu como compositor de canções, versos muito bem construídos e que não se repetem, dão ânimo e vigor a música. Os timbres também são um ponto alto, as teclas do refrão e verso totalmente contrastantes de alguma forma casam de forma impressionante.

Todo álbum com uma participação de 3Stacks é um concorrente direto ao título de álbum do ano. Andre 3000 aparece de forma agressiva na impressionante “Where’s The Catch”, um riff sombrio de piano conduz a música enquanto a quantidade de instrumentos percussivos aumenta cada vez mais. Uma guitarra distorcida e afiada abre passagem para o verso de Andre, que é talvez o ponto mais alto do disco.

Voltamos a programação normal, de canções de amor estruturadas. Em “I’ll Come Too” James expressa a sua vontade de estar sempre ao lado de Jameela mesmo que não haja necessidade, um pouco bizarro, mas quem somos nós, meros mortais, pra julgar? A música chega a ser simples, verso-refrão-outro, mesma fórmula, pouquíssimos instrumentos nos dois primeiros terços, que dão espaço a sessão de cordas, no terço final.

“Power On” é o momento mais fraco do disco, James se expressa de maneira rasa, quase infantil, sobre um assunto que de fato é delicado, mas não aborda com grande profundidade. Além da melodia repetitiva e fraca, talvez a música mais fraca de discografia inteira de James. O single lançado em maio passado “Don’t Miss It” agrega bastante ao disco, uma faixa de fato fora do comum para James, a sensibilidade que faltou em “Power On” sobra em “Don’t Miss It”

Quem nunca experienciou um episodio de insônia certamente não é humano. “Lullaby For My Insomniac” foi literalmente escrita para ajudar sua parceira a dormir, e - meu deus - eu imagino como isso tenha sido efetivo, simplesmente uma das faixas de encerramento mais brilhantes de Blake, o sintetizador discreto do inicio é engolido para cama de vozes gravadas por James e se transforma em nada mais nada menos do que uma faixa puramente acapela.

Pra ser sincero, nem eu - e nem ninguém - esperava uma mudança tão brusca na sonoridade desse disco. Mesmo depois de dezenas de ouvidas, eu ainda não sei o que me encanta mais, o que me deixa desapontado, ou o meu sentimento sobre algumas faixas. O fato é que “Assume Form” pisou num território ainda inexplorado pra James Blake como compositor e artista, a forma que ele tanto almeja assumir promete, e o primeiro passo foi dado com o pé direito.

8.7

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