Crítica | Jay-Z - 4:44

Crítica | Jay-Z - 4:44

Jay-Z construiu sua carreira em se vangloriar de como cada escolha - certa ou errada - sucedeu em transformá-lo em um dos maiores artistas de sua época. Houveram dúvidas, incertezas e arrependimentos durante o caminho, mas raramente foi possível ver alguma rachadura no hustler, intocável dentro do império que ergueu ao seu redor. "4:44" não é apenas a antítese de tudo isso, é ele derrubando todas essas muralhas, descendo do trono e questionando sua coroa. É, acima de tudo, sobre o seu legado não apenas como artista, mas como ser humano. 

Shawn Carter conhece esse jogo que é a indústria musical. Ele conhece os processos de fazer uma boa canção e de montar um bom álbum. Ele conhece música em geral e sabe os samples que quer que No I.D., o produtor solo do registro, utilize para realçar o sentimento de suas letras. Em apenas 36 minutos, "4:44" é conciso, mas nunca econômico, um trabalho que se arrisca mais do que qualquer coisa que ele tenha feito e que serve para mostrar, que após 21 anos de carreira, ele ainda tem o mesmo toque que permitiu essa longevidade com relevância. Quantos rappers paramos de ouvir após o primeiro ano?  

Bom, já são quatro desde "Magna Carta, Holy Grail", um mediano álbum experimental, mas superpopulado de ideias tentando adicionar o fator pai e marido à sua música. Aqui ele ainda está um pouco enferrujado e os sinais da idade começam a aparecer, mas é facilmente o mais próximo de seu auge desde "American Gangster", longos dez anos atrás. Seu flow não está mais tão afiado nos finais de cada bar, e sua habilidade de trocar de cadência com uma facilidade inumana também está um pouco afetada, mas a fluidez de cada performance ainda é a mesma que virou regra em toda sua carreira. Não seria justo compará-lo aos rappers de hoje, Jay-Z é um mago com suas rimas e consegue planejar para que até mesmo suas "fraquezas" de hoje sejam compensadas pela forma como o produto final é orquestrado. Seja deixando o sample falar por ele, encurtando versos, refrões, até mesmo músicas inteiras, ou esticando o tempo onde ouvimos apenas a batida. Estruturalmente é algo simples, mas altamente evocativo. 

As vezes ele parece não querer acertar seu flow de propósito. Na maravilhosa faixa título, onde ele abertamente se desculpa com Beyoncé por conta de sua infidelidade, não parece mais uma performance de rap do que alguém que acordou as 4:44 da manhã (como ele disse ter feito), e queria tirar tudo possível de sua cabeça para tentar voltar a dormir. O sample, "Late Nights and Heartbreak" da desconhecida Hannah Williams assombra a canção, quase como gritos desesperados que impedem sua paz interior. Como em suas melhores músicas, cada frase esconde outros significados. Seu apelido é "JayHova", uma estilização de "Jeová", mas ele diz só acreditar em milagres agora com o nascimento de seus gêmeos, assim como foi necessário que Blue fosse uma menina para ele repensar suas antigas decisões. As mansões são ótimas, mas de que adianta uma cama de luxo se marido e mulher dormem de costas um para o outro? Aqui ele não espera apagar seus erros, mas sim reconhecer e jogar toda culpa para cima de si.

"Not meant to cry and die alone in these mansions / Or sleep with our backs turned / We supposed to vacay 'til our backs burn /We're supposed to laugh 'til our heart stops /And then meet in a space where the dark stop" - 4:44

Seu status hoje é algo engraçado. A maioria dos rappers da atualidade que acreditam serem os melhores, preferem evitar Jay-Z, mas ele não precisou ser chamado para entrar na discussão. Na simples e curta "Moonlight" (o excepcional vídeo acima), ele coloca relevância e combustível no desastre que foi o Oscar de 2017, enquanto discute a irrelevância destes rappers em mudar qualquer coisa. Fazem apologia a armas que nunca vão usar, e mesmo quando ganham garotas e dinheiro, vão continuar perdendo. É um ataque indefensável, e ele não precisa de um banger para desarmá-los, mesmo que ele não queira derrotá-los mais do que ensiná-los. Em "Family Feud" ele prega para que parem de tentar separar sua cultura, com a simples frase "No one win when the family feuds" como refrão, e provocativamente traz Beyoncé para abençoar a faixa. 

Raramente ele e No I.D. desperdiçam tempo. Cada faixa tem personalidade própria, e apesar de funcionarem em harmonia com suas performances, se destacam por si só. As influências são muito variadas aqui, incorporando soul e jazz em batidas que quase ironicamente lembram a musicalidade dos dias de hoje. O uso dos samples é magistral, sendo que cada um adiciona um peso estratosférico às composições. Até mesmo em "Bam", onde ele ostenta, ao contrário do resto do álbum, o sample é de um clássico do reggae por Sister Nancy, uma das poucas mulheres a suceder no gênero nos anos 80. Junto com ele, Damian Marley. Na groovy "Caught Their Eye", com Frank Ocean, ambos falam sobre a importância de saber o que está ao seu redor, enquanto o sample é "Baltimore" de Nina Simone, falando sobre como era difícil viver na cidade décadas atrás. Foi tudo muito bem pensado e trabalhado, em um álbum que não é menos um artefato histórico do que uma coleção musical. 

As melhores músicas aqui são quando ele é o centro da conversa, e o nível de literalidade é além do normal. Na abertura, "Kill Jay-Z", ele assassina seu ego, e sim fala sobre Kanye West, mas ninguém prestou atenção na frase que veio logo após isso "Fuck wrong with everybody?" is what you sayin'/ But if everybody's crazy, you're the one that's insane". Na linda "Smile", ele fala abertamente sobre sua mãe ser homossexual, mas o verdadeiro personagem aqui é ele, falando para ela que bons tempos sempre vêm a frente. Ele toma conta da batida seca, que levemente lembra o rap de 2017, na que é provável sua melhor performance do álbum. Na impossível de se ignorar, "The Story of O.J.", ele traça a história dos negros na América durante anos, em uma música que irônica e tristemente fala sobre como seu sucesso não importa, se você continua sendo negro. A produção aqui é estonteante, e a melhor parte talvez seja o embaraçoso silencio após a infame frase de O.J., respondida com um simples mas aterrador "ok...". 

"Marcy Me" e "Legacy" terminam o álbum juntas, e talvez isso tenha um motivo. A primeira é uma nostálgica e imersiva visita ao lugar onde ele cresceu, enquanto a segunda traça o fim de tudo e o que vai ficar quando ele se for. "Daddy, what's a will?", Blue pergunta, e fica claro que todos os prêmios, o reconhecimento, o dinheiro, de nada servem se ele não conseguir mudar um estigma que o assombra por anos. Um testamento é algo que negros não tem. Aqui, em todo este álbum, Jay-Z discute sua vida pessoal e como ela afeta e é afetada pela sociedade na América, a terra do sonhos onde ser negro significa não receber heranças, e colocar suas expectativas em poucas formas de sucesso. 

"4:44" é um trabalho pessoal, e um tão fenomenal que mesmo se relacionando um pouco com cada um de nós, ainda parece que somos intrusos. Aqui vemos Jay-Z, um dos maiores artistas vivos, na sua forma mais pura, o humano por trás de tudo tentando fazer um balanço de sua vida, e se reencontrar musicalmente. Depois que tudo estiver finalizado, nossas vidas podem ser medidas por uma simples pergunta: o mundo está diferente de como era antes? Para ele, talvez a resposta seja sim. É assustador pensar que nem ele, nem nós, podemos ter certeza. 

9

 

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