Crítica | Harry Styles - Harry Styles

Crítica | Harry Styles - Harry Styles

escute o álbum no fim do post

Mais de ano se passou desde o hiato do One Direction. Tivemos o prazer - ou não - de ouvir os trabalhos solo de quase todos os directioners, com a exceção de Harry. Um dos membros mais notórios da boyband nos fez esperar até abril de 2017 para descobrir quem seria Harry Styles, artista solo. Uma espera que, até ali, tinha valido a pena, porque o lançamento de "Sign of the Times" foi uma ótima surpresa, como eu já havia mencionado aqui antes. "Sweet Creature", segundo single, também é uma faixa bem agradável. Logo, o jovem cantor referido na presente crítica me deixou com altas expectativas.

E a grande questão é: "Harry Styles", o álbum auto intitulado que marca a estreia do cantor, atinge as expectativas que seus singles estabeleceram?

É com muito pesar que digo que não.

E fui com muita disposição em direção a esse álbum: falando sério, gostei tanto dos singles que o antecederam e da proposta old-school-rock que Harry estava trazendo que sinceramente me esforcei para gostar deste trabalho. E é este o maior problema do álbum, a sobra de potencial nas músicas que, no entanto, não conseguem realmente me fisgar sem que eu me esforce.

Apesar de o cantor ter dito que não queria parecer só um compilado dos anos 60, 70, 80 e 90, isso é exatamente o que acontece aqui. O disco parece uma coletânea dessas décadas, com muito pouco de genuíno e autêntico por parte do artista. Harry, aparentemente, quer muito ser um rockstar. E não tem problema nenhum nisso. Algumas pessoas querem ser engenheiras, algumas querem ser astronautas, algumas querem ser rockstars. Tudo bem. No entanto, uma das premissas do rock é uma dose de rispidez, ardência, uma autêntica urgência em dizer o que se quer dizer - seja o que for. Esse disco não tem nada disso.

Harry parece ter dedicado tanto de sua atenção e energia a criar músicas que reverberassem grandes influências do rock clássico que se esqueceu de, em primeiro lugar, criar músicas que possuíssem a mesma dose de verdade artística e inspiração que há nesses clássicos.

Nos 40 minutos de duração do disco, o jovem cantor busca apanhar o máximo de referências possíveis no tempo disponível. Na verdade, ele o faz com tanto esmero que quase parece estar tentando completar um desafio, tentando embutir em cada brecha possível uma pitada de algum artista que ele admire.

DESAFIO DO ÁLBUM DO HARRY

Que música do álbum referencia a qual(is) artista(s)?

U2, Elton John, James Taylor, Arctic Monkeys, David Bowie, Jet, Beatles, Rolling Stones, Lady Gaga, Mumford & Sons, Beck, Bon Iver.

*resposta no final do post

Instrumentalmente, o álbum se sai razoavelmente bem. A produção é competente e assertiva na maior parte do tempo, evocando texturas agradáveis nas músicas mais intimistas, grandiosidade no melhor estilo glam rock em outras faixas e até um rock mais cru em alguns momentos. O cerne do problema é que tal produção é genérica. Ela faz o que tem que fazer para emplacar essa sonoridade rockeira sem inovar em nada - a recíproca perfeita para o que Harry faz na essência de cada canção composta.

Como eu disse, na tentativa de, com todas as forças, fazer um super álbum de rock, Harry esqueceu dos princípios mais básicos para se fazer um, e entrega um trabalho que não tem coesão alguma. E, apesar de em algumas canções a performance vocal dele, (ainda muito presa ao padrão estético de constante perfeição tonal, provinda do X Factor e imposta durante sua carreira no OneDirection) incomodar bastante para quem quer fazer rock, não é o fator que deixa o álbum tão "randômico" quanto ele é. Mesmo com Styles parecendo um tiozão nos momentos em que tenta ser rockeiro jovem e descolado, o que faz com que o álbum morra na praia, de verdade, são duas coisas:

falta de foco e de qualidade nas composições.

Talvez, mesmo com composições medíocres, o álbum pudesse ser melhor caso houvesse uma estética mais focada neste trabalho. Caso tivesse sido feita a escolha: vamos fazer algo mais Stones, ou algo um pouco mais folk, ou algo mais na vibe David Bowie e Elton John, e talvez, mesmo com uma música cuja introdução fala de ver comédia romântica na Netflix, o álbum desse mais certo. Todavia, se escolheu fazer tudo. Duas músicas para cada influência e vibe possível.

Ok, Harry, você vendeu milhões de cópias com o 1D, vá em frente faça sua miscelânea, desde que ela fique tocável no rádio.
Att, Columbia Records

Assim sendo, a única saída possível para que o álbum tivesse alguma unidade seria boa composição. Letras que realmente nos apresentassem algo de concreto, ou que fossem simplesmente interessantes de verdade, engajantes. Letras que tivessem sido, pelo menos, um pouco mais pensadas. Ao não tomar esse cuidado, o álbum acaba sem unidade estética, sem unidade na mensagem, sem unidade poética, sem unidade musical; e acaba parecendo que até nisso Harry se inspirou nos velhos tempos, já que, até os anos 60, um álbum era simplesmente uma porção de músicas gravadas em dado período de tempo. É isso que Harry Styles parece ser.

Podemos fazer um paralelo entre este disco e "24K Magic", do Bruno Mars. Styles largou, já no primeiro trabalho, tentando alcançar os clássicos que o inspiram, mas o faz sem consistência. Bruno Mars, por outro lado, levou anos de carreira e 3 álbuns, mas em "24K Magic", encontra o equilíbrio perfeito entre reproduzir suas inspirações do R&B, soul e disco, sem perder sua personalidade.

Porém, é claro que existem bons momentos. "Sign of the Times" é a melhor faixa do disco, e não perdeu de forma alguma sua qualidade. A abertura com "Meet Me in the Hallway" é um ponto alto, tanto pela verdade que Harry consegue transmitir quanto pela escolha de uma faixa mais discreta para abrir; "Sweet Creature" tem uma performance doce na medida certa, com produção que cai como uma luva; "Carolina" parece ser a única faixa que equilibra as referências do cantor com algo de novo e mais próprio dele, e, não fosse o refrão ridículo (she´s a good girl, she's a good girl, she's such a good girl, she feels so good) poderia ser uma das minhas favoritas aqui; e "Two Ghosts", apesar de ter na melodia do verso uma cópia descarada de outro hit da música pop, é provavelmente a melhor letra do álbum, com verdade pessoal e sentimental mais palpável. O resto das faixas mistura erros e acertos, de forma que não haja mais nenhuma menção realmente relevante aqui. Não tem nenhuma faixa horrível. Mas não mais nenhuma faixa ótima.

O álbum de estréia de Harry Styles não é um fracasso. Na verdade, é animador ver que um nome como o dele, saindo de uma cena musical que lhe foi altamente lucrativa, está querendo se aproximar do rock e se inspirando em artistas que não têm tido tantos sucessores na indústria atual. É uma pena que, por tentar com tanto empenho ser levado a sério, tenha acabado soando forçado em todo momento que devia soar espontâneo.

4.5

 

Respostas do Desafio
  1. Meet Me in the Hallway - U2 bom.
  2. Sign of the Times - Bowie, mas na medida certa.
  3. Carolina - Beck?
  4. Two Ghosts - You and I, da Lady Gaga, no melhor estilo James Taylor.
  5. Sweet Creature - claramente o que o Mumford & Sons faria se tivesse que recriar Blackbird, dos Beatles.
  6. Only Angel - eu acho, que era, pra ser, Rolling Stones.
  7. Kiwi - retorno do Jet ou b-side do Arctic Monkeys? Disputa forte.
  8. Ever Since New York - U2 ruim.
  9. Woman - se vai seguir a cartilha de Bennie and the Jets, clássico do Elton John, amigo, pelo menos faça uma música boa
  10. From the Dining Table - Bon Iver, mas com uma tristeza tão mais superficial que dói comparar.
Crítica | Bryson Tiller - True To Self

Crítica | Bryson Tiller - True To Self

Crítica | Kendrick Lamar - DAMN.

Crítica | Kendrick Lamar - DAMN.