Crítica | Taylor Bennet - BE YOURSELF

Crítica | Taylor Bennet - BE YOURSELF

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Ser o irmão de um dos rappers mais amados do mundo é ao mesmo tempo uma dádiva e um empecilho. 

Não é "quase", ou "praticamente". Ao ouvir Taylor Bennet você vai se lembrar automaticamente de Chance The Rapper, sabendo que ele é seu irmão ou não. A voz, o estilo de rimar, a aparência, até mesmo o estilo musical que, aparentemente, pretende seguir. Os dois são quase idênticos e não parecem ter vergonha ou receio que isso atrapalhe suas carreiras.

Bem, a de Chance não vai atrapalhar. Após "Coloring Book" teve ascensão meteórica nas listas de todos sobre os melhores rappers de hoje, vai gravar mais um álbum de sete faixas com Kanye West - que pode muito bem ser o melhor da leva que já contém cinco - e parece calcular bem o próximo passo de sua carreira. Já Taylor está do "lado errado" da irmandade. Não é sua culpa, mas muitos vão vê-lo como o irmão de Chance e que apenas ganha suas chances por conta disso. Alie isso ao fato de que ele se declarou bi-sexual no ano passado, no mundo preconceituoso que vivemos, e sua carreira, apesar de contar com uma boa impulsão familiar, já traz obstáculos gigantescos.

A verdade é que o artista LGBTQ que faz sucesso hoje não é o que tem mais talento - Frank Ocean não tem sequer um hit top 10 na Billboard -, mas sim o que vende sua diversidade da melhor (ou pior) forma. Isso, definitivamente, não é o caso de Taylor. 

Se algo marca seu novo EP, "BE YOURSELF", é o conflito interno que talvez nem ele saiba que tem. Por seis faixas ele alterna entre parecer grato e preocupado com sua proximidade com a fama, fala de vadias aqui, de amores do mesmo sexo ali, por extensos versos conta sua vida em Chicago e traça paralelos de sua infância com a fase de transição que está vivendo. A bem da verdade é que, artisticamente, Taylor parece tão confuso como em sua vida pessoal. 

Mas não entendam mal, isso não é, de forma alguma, algo negativo para o projeto. A vida e deslumbre que ele traz em sua voz é algo divertido e confortável, é mais um jovem como nós que ainda não tem os jeitos e maneiras de uma super estrela. O melhor momento é justamente na faixa título, onde ele deixa sua rima se estender corajosamente sem tentar segurá-la ou impedi-la de relevar demais. O flow me lembrou positivamente "Lighters", de Eminem e Royce da 59, talvez a melhor faixa daquela colaboração e a musicalidade alegre e colorida lembra "Coloring Book". É aqui que ele entrega alguns de seus melhores versos e provavelmente a melhor frase de sua carreira até então: And niggas still call me faggot, but bitch my shit lookin' fabulous.

As batidas raramente batem muito fortes, sempre sendo preteridas pela recheada produção, que entende bem a entrega vocal de Taylor. Em "Rock 'N' Roll" ele acelera suas rimas de forma eficiente e não perde nenhuma bar e a faixa entrega, possivelmente, o refrão mais memorável do projeto. O fechamento, "Know Yourself" é outro ponto alto, com um groove e flow cadenciado no começo e com uma energia propulsora da metade até o fim. 

Infelizmente, o território que ele entra é similar demais à outros artista de Chicago, especialmente Saba, que lançou um dos melhores trabalhos de 2018 até agora. "Hype me Up" mistura batidas trap muito comuns, um jazz sutil ao fundo e uma participação descartável de Supa Bwe; "Better than you ever Been" é um de seus momentos mais héteros no EP, e não soa nada diferente do que qualquer outro rapper poderia fazer. Young Thug entra muito bem, com seu já icônico estilo vocal (talvez o primeiro de uma leva que soa extremamente similar a ele; Chance, Saba, Taylor inclusos), mas não torna a faixa e seu preguiçoso refrão em nada especial. "Everything I can't Handle" tem a produção ainda mais datada, sendo quase uma re-edição de "Grey", de Saba, que também trata de temas parecidos.

Sua falta de afinidade com refrões atrapalha também, sendo que a musicalidade, um tanto homogênea, não te permite singular qualquer faixa em especial. Não há nenhuma música ruim aqui, mas para um artista que poderia trazer uma visão diferenciada para um estilo musical já bem trabalhado, não há como não considerar "BE YOURSELF" um tanto de uma decepção. 

O novo EP de Taylor Bennet funciona mais como uma carta dele à ele próprio do que um atestado real de suas habilidades. Aqui ele confirma seu talento para rimar, mas acaba se perdendo em meio à indecisões líricas e musicais, que impedem o produto de alcançar todo o potencial de seu artista. 

6.2

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