Crítica | Ariana Grande - Thank U, Next

Crítica | Ariana Grande - Thank U, Next

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Com seu segundo álbum em menos de um ano, há uma certeza sobre Ariana Grande: ela chegou.

Caso você more em uma caverna ou apenas ache que música pop é algo insuportável, talvez não saiba o quão grande Ariana Grande se tornou (piada intencional). A menina que começou nas séries adolescentes da Nickelodeon, “Victorious” e “Sam & Cat”, deixou todas suas contemporâneas - atrizes e cantoras - para trás e é hoje, sozinha, a maior estrela pop do cenário musical. Não me crucifiquem, ela não é maior ou melhor que Adele e Beyoncé, mas ambas já passaram dos trinta e estão procurando outras coisas em suas carreiras. O mesmo vale para Lady Gaga e Rihanna e, caso você realmente more em uma caverna ou tenha apenas perdido noção do tempo, Katy Perry, Britney Spears, Avril Lavigne, Shakira, entre outras, estão em barcos ainda mais distantes.

A verdade é que, de tempos em tempos, a indústria reza para que surja um novo nome da música pop que tome conta, ainda mais em um cenário completamente dominado pelo hip-hop como o dos anos 2010. Taylor Swift era a última ocupante do posto, mas polêmicas e mais polêmicas sobre a veracidade de sua imagem diminuíram consideravelmente o impacto que ela atingiu com “1989”, longínquos cinco anos atrás. O caminho estava livre e, pelo menos pra mim, sempre foi claro que Ariana era a única de sua leva com talento e personalidade para chegar lá. Demi Lovato, Selena Gomez, ninguém é o pacote completo, só Ariana.

E o curioso é que normalmente o crescimento artístico vem após a fase mais popular de uma artista desse calibre. Foi assim com a maioria dos nomes que mencionei acima, porém, Ariana lançou um dos melhores álbuns de 2018 em “Sweetener” que, apesar de bem sucedido, rendeu apenas um hit e não foi um sucesso estrondoso. Porém, novamente, ao final de 2018 ela lançaria um dos singles mais icônicos de toda a década e, pela terceira vez, caso você não more em uma caverna, talvez já esteja até enjoado de “Thank U, Next”.

Uma música simples, com poucos acordes, pop em toda sua essência e que transformou tanto sua ponte como seu refrão em algumas das frases e memes mais repetidos de 2018. É irresistível, por mais cético que você seja em algum momento você vai se pegar cantarolando e tudo bem, as grandes estrelas pop tem esse feitiço, não fique envergonhado. E, curiosa, mas obviamente, o álbum “Thank U, Next” é praticamente inteiro construído em torno de sua faixa título. Sonoramente, não é tão explorador como “Sweetener”, mas talvez seja exatamente o passo que Ariana precisava dar nesse momento. Feito as pressas - rumores falam em duas semanas - é um projeto menos cuidadoso, menos arriscado e que foge menos do que se ouve no topo das paradas hoje em dia, quase como uma tentativa com altas chances de acerto de fazer um grande sucesso.

Mas isso não diminui as muitas qualidades que este álbum proporciona. Ariana se encontra em uma montanha russa de emoções e, entre tristezas e alegrias, eleva ao máximo o conceito de liberdade e empoderamento da faixa título. Sua “imagine” não é nem de perto tão altruísta como a “Imagine” que todos conhecemos, e sim uma pergunta a seu crush do momento se ele consegue se imaginar em uma noite de Netflix com ela. Talvez por isso Ariana seja tão popular, ela é como todas as pessoas de sua idade e ainda confunde sua própria sensualidade com as afeições e desejos de uma adolescente que acredita em unicórnios. É divertido, bonito e, principalmente, soa sincero. Em “needy”, acompanhada de uma maravilhosa e minimalista produção, ela dá um show de controle vocal e desafia de forma carinhosa e decidida implicações que a sociedade coloca sobre jovens mulheres. Já na sequência, a divertida “NASA”, ela decide que precisa de espaço e usa trocadilhos bobos, mas eficazes para falar isso. Contradizendo seu estado de espírito constantemente, ela mostra que ninguém pode ou deve dizer como uma menina tem que se comportar, isso é escolha inteiramente dela.

Mesmo nas piores faixas do álbum é possível tirar coisas positivas. “bloodline” é outra tentativa sua de incorporar reggae fusion, e não soa melhor que “Side To Side”, de alguns anos atrás, mas reforça a ideia de que uma mulher pode sair com quem ela quiser sem ter a obrigação de ter um relacionamento. “in my head” abusa da mais clichés das batidas trap, mas fala sobre as expectativas frustradas que ela teve com uma certa pessoa. “bad idea” é a pior faixa do álbum e, junta com essas outras duas, poderia facilmente ser cortada.

E é claro, é um álbum pop que tem como objetivo emplacar diversos singles. “7 Rings”, sucesso absoluto desde que foi lançada, é uma surpreendentemente eficaz faixa trap que celebra o dinheiro ao melhor estilo Migos ou Cardi B. Já “break up with your girlfriend, I’m bored” não é nada diferente do que suas contemporâneas tem feito e é tão obviamente comercial que enjoa na segunda ou terceira ouvida.

Talvez o momento alto não só do álbum, mas de sua carreira em termos artísticos seja a linda, assombrosa balada “ghostin”. Pessoal e vulnerável, sua voz se inclina levemente para o fundo da canção, se misturando à maravilhosa sessão de cordas, sem sequer uma batida, uma atmosfera confortável, funcionando quase como uma faixa de música ambiente. As letras, falando sobre estar com alguém, mas amar a outra pessoa, se ligam diretamente ao conturbado final de sua relação com Pete Davidson, que ficou com ela enquanto superava a morte de Mac Miller. Não sei se é algo que seus fãs deveriam escutar, mas esse é o verdadeiro conceito de arte, transformar sua vida nela e vice-versa.

Uma música como esse mostra seu amadurecimento e, mesmo que externamente ela esteja amando o sucesso que está fazendo, são esses momentos que a fazem uma grande artista ainda em crescimento, diante de nossos olhos.

7.8

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