Crítica | Jorja Smith - Lost & Found

Crítica | Jorja Smith - Lost & Found

O momento atual do cenário musical é curioso, artistas cada vez mais jovens tomam as rédeas de praticamente todos os gêneros que dominam as estações de rádio hoje em dia. Especialmente hoje focaremos em um dos gêneros emergentes mais populares do momento: o Neo Soul, a nova geração do R&B que mescla elementos de Hip-Hop e Pop com as características tão marcantes do Soul de raiz.

Millennials tem papel fundamental nessa subcultura, tanto como cantores, instrumentistas e compositores como também formadores de opiniões, tendo ideias fortíssimas e seguras sobre políticas públicas, igualdade de gênero, sexo e moda. Tendo grande influencia sobre o público, muitas vezes, da mesma faixa etária.

O R&B moderno se comunica diretamente com a juventude que partilha da vontade de não seguir os passos conservadores das gerações anteriores, que leva as causas sociais a sério, mas também olha com carinho para estética e streetwear.

Khalid, Daniel Caesar, Kali Uchis, H.E.R, entre muitos outros, Millennials que atingiram reconhecimento global e recentemente tiveram seus álbuns de estreia lançados depois de uma série de singles de sucesso e participações com artistas aclamados de outros gêneros. Todos eles carregam bandeiras de minorias e, mais do que entreter o publico musicalmente, passam a mensagem maior por trás, nas entrevistas, nas publicações nas redes sociais e até mesmo nas polemicas que compram pra si. O R&B atual mostra exatamente como o futuro é prospero e o que é ser um Millennial num ambiente tão poluído e turbulento como é o cenário musical dos anos 2010.

Jorja Smith é uma talentosíssima moça nascida em 1997, em Walsall, na Inglaterra. A britânica lançou bons singles durante 2016 e um EP com algumas inéditas mais além no mesmo ano. Colaborou com uma série de artistas no ano seguinte inclusive em duas faixas no disco “More Life” do canadense Drake, também fez parte do disco da trilha sonora do filme “Pantera Negra” orquestrado por Kendrick Lamar. 2017 rendeu algumas aparições importantes em programas de televisão, incluindo Jools Holland da BBC onde cantou dois dos seus singles “Don’t Watch Me Cry” e “Blue Lights”.

Em abril desse ano, Jorja anunciou via Instagram que o disco, que já estava em iminência, seria lançado em junho e também revelou título e tracklist. Repleto de velhas conhecidas do público, a metade das músicas inclusas já tinham sido lançadas como single, o que diminuiu de certa forma a ansiedade para o primeiro trabalho completo da cantora.

"Lost & Found" conta com doze músicas, 47 minutos de pura personalidade e segurança na performance vocal, Jorja entrega exatamente o que se espera de um artista Millennial e um pouco mais, a britânica é completamente destemida onde sua bela voz aparece no disco, não mostrando nenhum nervosismo ou ansiedade. E preservando os nuances únicos de sua voz e não se entregando perdidamente a suas maiores referencias, um erro que muitos artistas cometem nos seus primeiros álbuns.

A faixa título abre o disco com o grave intenso de uma jam session levemente dando espaço aos médios e agudos, como se adentrássemos dentro de uma sala de estúdio, uma espécie de fade in. A Jam floresce num belo instrumental R&B Drum & Bass, os vocais são suaves e mesclados com belíssimos falsetes e melismas, uma espécie de marca registrada da cantora.

Um fato curioso é que o disco foi um projeto de dois anos, começou a ser gravado quando Jorja tinha 18 e terminou sua produção quando já completava 20. Além disso, algumas composições ainda mais antigas estão aqui, "Teenage Fantasy" foi escrita quando ela tinha apenas 16 anos. Assim conseguimos ver uma série de contradições em relações aos mesmos assuntos no decorrer do álbum. Acompanhando de perto o crescimento e a construção de caráter da artista durante esses anos todos.

“Teenage Fantasy” é uma incrível faixa que em momentos remete ao primeiro disco de sua compatriota, Amy Winehouse. Conta uma história boba de colegial, sobre amor próprio e autoconhecimento. Uma das melhores do disco, revela uma das primeiras inconsistências, o excesso de backing vocals duplicados oitavados que vão ficando cada vez mais previsíveis e enjoativos conforme o tempo vai passando.

“Where Did I Go” é uma balada já conhecida do público, o piano dá o tom inicial da música e depois é acompanhado por bateria eletrônica e baixo respectivamente, essa, com uma orientação mais pop. A ausência de novidades no arranjo e mixagem nas músicas já conhecidas foi uma decepção que tive a essa altura do álbum.

O primeiro single exclusivamente de "Lost & Found" é apresentado em seguida, na quarta faixa, “February 13th”. O arranjo é minimalista, assim como a primeira parte do disco, o timbre de guitarra discreto é parte vital do arranjo e do clima que ela se propõe a entregar. A produção das faixas novas é caprichadíssima, porém as vezes exagerada, o que não é o caso dessa faixa, mas sim da próxima “On Your Own”. Um piano com forte detune nos introduz a essa faixa, que apesar de ser uma composição sólida, o excesso de sirenes e capricho nas vozes incomoda a primeira execução. A produção do álbum carrega uma característica muito única, uma tentativa de soar vintage mesclando técnicas modernas.

Os timbres são úmidos, o uso de reverb não é nada moderado e quase nunca seco, os instrumentos e vozes parecem sempre deixar uma cauda de áudio quando são executados, como a cauda de um cometa, depois de tocados as vezes acabam se perpetuando no conjunto.

Depois da quinta faixa adentramos a parte mais super-produzida. “The One” acrescenta cordas e ajuda a construir o clima épico da música, a música fala sobre a não necessidade de se relacionar amorosamente quando o timing não é certo, sobre se curar antes de se atirar em responsabilidades de novo.

Never had to wait for love / Always thought it’d come around / You come for me / But I’m nowhere to be found / Cancellations for conversations / I don’t need right now / I’m afraid that these relations / I can’t be tied down
— https://genius.com/Jorja-smith-the-one-lyrics

Na sétima faixa, “Wandering Romance”, o sample de voz modificado no inicio casa com a cama de synths construindo a ambiência, dessa vez o backing vocal oitavado agrega muito e vem como elemento de imprevisibilidade pois é mais grave no pré-refrão. “The One” e “Wandering Romance” tratam do mesmo assunto das primeiras faixas, porém com mais maturidade, o que dá a entender que foram escritas por último, além, claro, de ambas serem inéditas.

O primeiro single lançado por Jorja, em 2016 foi “Blue Lights”, e é de fato a melhor faixa do álbum. A progressão do piano lembra quase imediatamente o hino vaporwave “420” de Macintosh Plus, a quietude voz + piano é quebrada por uma bateria característica de Hip-Hop e as bonitas bars de Jorja que revela a versatilidade da artista. Ainda mais forte na música seguinte “Lifeboats” apenas bateria e uma guitarra sem efeitos serve para um belíssimo freestyle de sotaque britânico.

As últimas quatro faixas são bem mais mínimas, quase acústicas, inclusive, uma delas é literalmente. “Goodbyes” é uma balada violão e voz, a formatação da música não ajuda e a faixa acaba ficando previsível e clichê, lembra alguns momentos dos últimos lançamentos de estúdio de Lana Del Rey.

“Tomorrow” é uma bela composição que casa com os temas de “The One” e “Wandering Romance”, o arranjo e o refrão dão os ares de um hit da Adele, mas de novo, a formatação da música deixa difícil a execução, o refrão é repetido inúmeras vezes numa música de apenas 3:50, cortando um ou dois refrões daria outro tom a execução do álbum.

A música de encerramento “Don’t Watch Me Cry” entra para o time de músicas já conhecidas, performada no programa Jools Holland em 2016. É uma balada piano + voz que sintetiza o assunto principal do álbum, estar eternamente se perdendo e se encontrando a cada passo, tópico abrangente que, nós, Millennals simplesmente adoramos ouvir repetidamente. Afinal, é cada dia mais complicado ter 20 e poucos anos.

7.1

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