Crítica | Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel + Casino

Crítica | Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel + Casino

“I just wanted to be one of the Strokes” Ok, Alex. Nós já sabíamos disso há algum tempo, essa linha icônica entre abrir o novo álbum da – ex maior banda de rock no mundo – mostra grande amadurecimento do líder, compositor e recentemente, showman da banda britânica.

Em 2013, um par de meses depois do lançamento do tão aclamado álbum "AM", eu disse para mim mesmo e alguns amigos: “Os Arctic Monkeys precisam de um hiato urgentemente”. Claro, o álbum era um sucesso comercial nunca antes visto, arenas lotavam inúmeras vezes por semana para ver os meninos de Sheffield tocar as novas músicas que davam a impressão que nunca mais sairiam das rádios.

A “marca” AM ficou grande demais para o que aquilo representava, o álbum não representava o resto de carreira da banda, e notavelmente teve a produção e composição mais genérica entre toda a discografia da banda, visivelmente tentando abranger um público mais “fácil”.

Mesmo assim não podemos negar o impacto cultural que o álbum proporcionou, influenciando uma geração de bandas com estética de som e imagem praticamente ripadas do álbum mais influente da banda de Sheffield, como "The 1975" e "The Neighborhood", levando a simplicidade das letras sobre noitadas e one night stands para a sonoridade mainstream do rock, essa simplicidade influenciando inúmeros jovens-adultos durante alguns anos após o lançamento.

O meu tão pedido hiato veio em 2014, depois de uma discreta passagem pelo Brasil com dois shows lotados no Sudeste, discreta pois o show foi uma tremenda ducha de água fria para quem esperou 7 anos para a volta dos macacos do ártico as terras brasileiras. A banda não tinha mais pique e nem postura para acompanhar a fama estrondosa que a acompanhava onde quer que fosse.

Depois de quatro anos sem sequer ouvir notícias sobre o paradeiro da banda (exceto pelo ótimo álbum do projeto paralelo de Tuner, "The Last Shadow Puppets", em 2016) o hiato parece ter revigorado o ânimo dos membros e também dado uma sobrevida a “marca” AM que foi tão abalada nos últimos anos.

Alex Turner, agora com 32 anos de idade, não cansa de nos apresentar novas facetas artísticas. Turner nos apresenta um mundo à parte em Tranquility Base Hotel & Casino, um hotel fictício situado aos arredores de “Clavius”, uma das maiores crateras existentes na Lua. Nesse universo fictício, a lua é densamente habitada num futuro próximo, Turner canta sobre consumismo, avanço tecnológico e fobia social durante a grande maioria das 11 faixas inéditas que constituem o disco.

Um fato novo é que pela primeira vez na discografia dos Arctic Monkeys a banda apresenta um álbum conceitual. A verdade é que a produção inteira desse disco é recheada de novos fatos, tendo o menor tempo de gravação já confirmado pela banda, com o arranjo das músicas sendo feito somente nas duas últimas semanas de produção, gravação em colagem, tendo grande parte dos arranjos das demos sendo de fato inseridas na versão final do CD. Também conta com a polivalência dos músicos pela primeira vez, nos créditos de “Batphone” fica confirmado que Turner grava todos os instrumentos com exceção de uma guitarra barítona.

"Star Treatment" faz o que se espera de melhor numa faixa de abertura, dá o tom do álbum e já diz qual o propósito do disco. Turner introduz a si mesmo como um “grande nome no espaço sideral”, reflete sobre como foi brutal a mudança do adolescente de 19 anos que só queria ser um dos Strokes que acabou fazendo um dos melhores debuts da história do rock e se tornou um grande figurão da música. Fala sobre o ambiente hostil que é a indústria musical e como cada vez está menos convencido que é o lugar para ele estar sempre presente. (“I found out the hard way that here ain’t no place for dolls like you and me”)

“So, who you gonna call? The Martini police?” a ironia sempre presente nas letras de Turner não nos abandona nesse lançamento, a propósito, está mais presente do que nunca, o autor de música com títulos extraordinários como: “Don’t Sit Down Cause I’ve Moved Your Chair” ou “The World’s First Ever Monster Truck Front Flip” não deixa nada passar em branco e dá uma alfinetada em quem o exige limites quando se trata de álcool.

A sonoridade da produção e arranjo soa como um filho de Velvet Underground com R&B do tardar dos anos 50, a quebrada do refrão pega desprevenido quem estava esperando uma pegada mais monótona, e já mostra que “Tranquility” não é nada como nenhum projeto que a banda já fez anteriormente, logo na primeira faixa já percebemos o trabalho crescente de Nick O’Malley, que agora, mais que nunca tem espaço pra trabalhar nas melodias de BPM baixo nas novas composições de Alex, agora orientadas pelo piano, como o mesmo já afirmou em algumas entrevistas, quase todas as canções foram originadas no recém comprado Grand Piano do vocalista.

“One Point Perspective” tem a levada de bateria R&B apresentada durante todo o álbum anterior, os diferenciais são: ótima composição, o arranjo de cordas e teclas e a escrita tradicional de Alex Turner, que não dava as caras desde 2009, em “Humbug”. A levada de piano e bateria carrega a música até o clímax e voltando, os vocais extraordinários de Turner nesse álbum flutuam livremente na música como uma genuína música de R&B, e esse é o ponto mais próximo que “Tranquility” chega de seu antecessor “AM”.

Emendado com o fim da música anterior os órgãos de igreja abrem “American Sports”, uma música curta que apresenta mais detalhes sobre o universo que Alex nos apresenta nesse álbum, uma música que fala da fragilidade dos laços humanos de forma semelhante a Josh Tillman e Leonard Cohen. O repertório vocal de Turner surpreende mais uma vez com registro vocal grave durante grande parte da música.

A faixa título “Tranquility Base Hotel + Casino” nos especifica sobre o tal hotel fictício, o baixo é de gigantesca importância para o andamento da música, os timbres de teclas analógicas constroem a tensão do refrão onde Alex nos mostra toda a hospitalidade de Tranquility Base com belos vocais. A ponte instrumental que conduz ao último refrão da música é de uma classe poucas vezes vista na discografia da banda.

Guitarras distorcidas, elas estão presentes! Mas por pouquíssimo tempo, “Golden Trunks” abre com guitarras saturadas, que destoam um pouco da canção com arranjo inspirado em Beach Boys e Tom Waits. Em outra letra bem característica de Turner, sobre até para referência ao líder do mundo livre, o presidente dos Estados Unidos, aquele que vocês sabem quem é.

A ponte e refrão final são o ponto alto da música. “And in response to what you whispered in my ear. I must admit, sometimes I fantasize about you too” Alex traz de volta (e com muita classe) a malicia repetidamente repetida no álbum antecessor.

“Four Out Of Five” é o riff do trailer lançado junto ao anuncio do álbum, lembro de ter achado um riff morno quando escutei pela primeira vez, fico arrependido por ter deixado 11 segundos de música me influenciarem tanto. Hoje, depois de escutar o álbum algumas dezenas de vezes, eu digo com segurança: “Four Out Of Five” é uma das melhores músicas já lançadas pela banda.

O riff é leve, tocado pelo violão na introdução e depois acompanhado por órgãos e guitarra respectivamente, conduz a melodia vocal com uma pinta de Morrison, e o refrão altamente inspirado por Bowie que nos pega de certa forma com a guarda baixa depois de um verso tão intenso.

“You push the button and we’ll do the rest” o som exótico do uso de memória. O antigo lema da Kodak serviu de inspiração para o verso de “The World’s First Monster Truck Front Flip” uma das músicas mais curiosas do álbum, com uma sonoridade meio circense, a banda nos introduz a no mínimo meia dúzia de instrumentos nunca utilizados nos álbuns anteriores. As guitarras nessa faixa são minimalistas a ponto de eu ter escutado apenas uma nota ou duas no decorrer da música inteira.

“Science Fiction” e “She Looks Like Fun” são minhas duas únicas duas decepções no álbum, a primeira por apresentar poucos elementos interessantes que já não foram acrescentados antes, o uso de violões nunca foi tão constante na carreira da banda quanto nesse álbum, mas ao mesmo tempo é uma surpresa grata, pois é muito bem utilizado nos arranjos na maioria das faixas.

“She Looks Like Fun” apresenta uma proposta interessante de canção que talvez pudesse ser mais bem executada apenas, pois a composição de Turner ainda sim é de alto nível, mas o arranjo fica a desejar, deixando o refrão maçante depois de alguns versos. As pontes nesse álbum apresentam grande variedade harmônica, inclusive nessa faixa, onde a ponte é a parte mais interessante.

A performance vocal mais exuberante de Alex é na penúltima faixa “Batphone”, Turner tem mais cartas na manga no seu repertório, entrega alguns drives suaves na voz, que acrescentam na ótima composição com uma ótima execução, arranjo de guitarra novamente minimalista, a música sendo levada pelo baixo e teclado.

A impressão de ser um álbum solo realmente fica grande a cada música que passa, e ela é justa, pois todas as composições são de alto nível. “Batphone” juntamente com “Star Treatment” leva o prêmio de melhor arranjo do disco provavelmente.

O encerramento com chave de ouro é o que entrega “The Ultracheese”, uma balada no maior estilo Cohen, e uma das melhores letras da carreira de Turner. Recheada de nostalgia e sendo um Ode aos velhos tempos, também leva um arranjo 50s estonteante, a produção de Tranquility realmente nos faz viajar no tempo.

Tranquility não entrega aos fãs o que eles queriam, mas sim, o que eles precisam. Certamente virá a ser o álbum mais contestado da carreira dos meninos ingleses, mas é uma reviravolta no estilo de som que traz o vigor que a banda precisava para dar a volta por cima no cenário musical, não como uma banda de massas, mas com uma obra de arte que precisa de múltiplas execuções para começar a ver as formas.

8.5

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