Crítica | Moonlight

Crítica | Moonlight

Uma vez a cada muitos anos, alguém faz um filme que é, de sua forma, uma obra prima irretocável, e poucas pessoas vão saber disso. 'Moonlight' é um filme independente, dirigido e escrito por Barry Jenkins em cima da peça de Tarell Alvin McCraney 'Moonlight Black Boys Look Blue'. Seu propósito não é causar discussões, derrubar barreiras, ou ganhar prêmios - apesar de que tudo isso deva acontecer -, e sim trazer para o cinema um estudo profundo de personalidades, na verdade, de uma personalidade, tão pouco comentada.

Assim como o excepcional 'Boyhood' de 2014, que foi para muitos, inclusive eu, um dos melhores (se não o melhor) filmes do século, aqui se conta a história de um jovem crescendo para a maturidade, com os principais estágios de sua vida sendo mostrados em tela. É mais difícil de sentir o mesmo tipo de proximidade e relação que tivemos com Mason, mesmo ignorando todas as questões sociais e raciais, e a razão disso é que vimos todos os pequenos aspectos da vida do jovem interpretado por Ellar Coltrane, e muitos deles são relacionáveis com qualquer gênero, classe ou raça. Com Chiron é diferente, nos sentimos como espectadores de uma triste história sobre uma vida terrivelmente dura, contada com delicadeza e ternura, que nos ajuda a entender tudo o que aquela criança está passando mesmo que ele mesmo mal saiba.

Dividido em três atos, 'Moonlight' começa com Little, onde Alex Hibbert dá vida a Chiron, um menino negro isolado, com uma mãe drogada, e que sofre bullying na escola por ser diferente das outras crianças. O roteiro de Barry Jenkins é excelente desde o começo, e liga cada aspecto da história de forma que eles sirvam apenas para a entendermos melhor o que se passa dentro da cabeça de Chiron. Sem nunca parecer forçado, cada relacionamento e acontecimento de sua vida apenas reforçam a dura realidade da vida dos subúrbios de grandes cidades americanas, e sem perceber estamos assistindo o melhor filme de protesto a violência contra os negros, mesmo que ele nem seja sobre isso. 

Chiron acha ajuda em um casal de traficantes, interpretados por Mahershala Ali e Jannele Monae, dois dos personagens mais gostáveis do ano. Ali está excepcional como Juan, sua figura é imponente e representa o máximo da masculinidade do homem, mas isso não fala mais alto que sua afeição pelo garoto, algo tão verdadeiro que não parece que estamos vendo atuação, e quando ele desaba é emocionalmente destrutivo. Jannele Monae é uma artista fenomenal, e prova que não é apenas mais uma cantora brincando de ser atriz. Sua performance como Teresa merece elogios, ela tem um senso de luz e conforto enquanto continua forte e decidida, se quer ver mais dela a todo momento. Ainda assim os holofotes estão todos em Hibbert. Seus olhos são tão escuros e profundos que mesmo que ele fale poucas coisas, você consegue ver todo seu sofrimento. Jenkins inteligentemente deixa o silêncio abrilhantar os diálogos, deixando com que cada ator dê tons de profundidade assustadores a seus personagens. Vamos apenas esperar que ele possa continuar fazendo filmes de forma saudável, porque esta é uma criança especial.

O filme toma outros contornos quando vai para Chiron, seu segundo ato. Agora Ashton Sanders é um adolescente que sofre com a sempre crescente maldade que crianças tendem a desenvolver quando começam a achar que entendem como a vida funciona. Suas interações com os outros são sempre desconfortáveis, e eu realmente não sei como, mas o mesmo olhar que Hibbert deu a Chiron em sua infância continua com Sanders. Aqui é quando o filme se arrisca e por pouco não perde um pouco de seu brilho. Em uma das poucas resoluções mal explicadas, Ali simplesmente desaparece, e apesar de entendermos que o mesmo foi morto por conta de seu trabalho como traficante, seria interessante e quase necessário ver a reação de Chiron a isso. 

Jenkins continua a brincar com a câmera de formas sutis, close-ups reveladores, planos abertos explorando uma parte nunca vista de Miami, que podem parecer meio estranhos a primeira vista, mas a forma como ele transforma o triste drama da primeira parte do filme em uma experiência instável, que pode e finalmente explode, mais do que funciona. A trilha sonora composta principalmente de música clássica e a fotografia que consegue captar essencialmente cada cenário utilizado, sempre dando um tom poético a história, auxiliam muito na subjetividade de cada ação. Nada aqui é feito para chocar ou chamar atenção, são situações que acontecem todos os dias. Quando Chiron finalmente resume sua sexualidade, é uma cena forte, onde todos que assistem são praticamente intrusos, mas ainda assim tão sutilmente tratada que parece a resolução correta.

Chiron cresce, e em Black, Trevante Rhodes pega seu papel. Agora ele é o traficante, um cara durão que usa roupas de Hip-Hop e se gaba por ficar com mulheres, mas é simplesmente difícil de aceitar isso e aqui é quando o filme poderia quebrar ou fechar da melhor forma, e Jenkins faz todos os movimentos corretos. Vemos por dentro da dureza de Chiron, seu relacionamento com sua mãe, interpretada de forma forte e arrebatadora por Naomie Harris, que você vai acabar odiando de qualquer jeito, tem um clímax de cortar o coração. Eu não quero, e não vou estragar o final, que é a melhor parte do filme e provavelmente do ano no cinema, mas posso dizer que é a história de amor mais pura e verdadeira em anos, tratada de forma tão natural que nem é mais um filme. E quando se espera que as coisas finalmente concluam como foram construídas para tal, tudo termina abruptamente, apenas para nossa própria conclusão de que essa história é dele, e não nossa.

Barry Jenkins fez um dos melhores filmes do ano ao trazer a peça de McCraney para o cinema com um senso de humanidade que falta na maioria das formas de arte de hoje em dia. Com atuações exemplares, um ritmo maravilhoso e uma conclusão que é tão gratificante como entendível, 'Moonlight' é um profundo estudo sobre a condição humana e sobre encontrar o seu lugar no mundo, e deve ser lembrado por gerações a vir. Bem ao final, a imagem que mais deve ficar na sua cabeça pode ser a última, o pequeno Chiron, com sua pele negra, e olhos mais ainda, tomando banho no mar sob a luz da lua. Este filme não precisa de Oscars, os Oscars, e o mundo, precisam desse filme. Que triunfo para um 2016 tão duro.

9.8

 

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