Crítica | A Forma da Água

Crítica | A Forma da Água

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Guillermo del Toro é conhecido por "El Labirinto del Fauno", um daqueles filmes que traumatizou sua infância ao pensar que iria assistir um conto de fadas. Bem, era um conto de fadas, mas tão sombrio que faria Lord Voldemort se curvar em aprovação. Em "A Forma da Água", Sally Hawkins é Elisa Esposito, uma faxineira em um laboratório de alta segurança do governo norte-americano onde uma criatura misteriosa é mantida em cativeiro. 

Depois de anos entre erros e acertos, Guillermo del Toro volta a entregar um filme que se destaca de tudo que tem sido lançado na indústria e deixa pouco espaço para críticas.

Um dos cineastas claramente mais ambiciosos e determinados em transformar sua imaginação em realidade, del Toro faz de "A Forma da Água" o próximo capítulo de seu amor à contos de fada e histórias sombrias. Além da obra que é "El Labirinto Del Fauno", ele já se aventurou por robôs gigantes ("Círculo de Fogo"), mortos-vivos/vampiros ("Blade II", "The Strain"), fantasmas ("Crimson Peak"), super heróis ("Hellboy") e outras fantasias obscuras. Ele gosta da coisa. Mas, dentre todos estes, talvez "A Forma da Água" seja o único onde a fantasia, na verdade, não é o foco principal. Um mestre em transformar histórias em chão para alegorias e fantasias, aqui ele faz praticamente o contrário, utilizando da criatividade para dar mais força a uma história sobre sentir-se incompleto, com a qual é fácil empatizar. 

Criatura

O quão estranho pode parecer o amor entre uma mulher muda e uma criatura aquática (que é praticamente Abe Sapien, uma das criaturas de "Hellboy")? É seguro dizer que é uma das histórias mais bonitas e sinceras do ano no cinema. Muito se deve à Sally Hawkins e sua esplêndida dedicação ao papel, te fazendo quase acreditar que a própria atriz é muda de verdade e demonstrando, cada vez que olhava para a criatura, todo o afeto que a própria sentiu falta durante toda a sua vida. É um trabalho notável da atriz, que é nossa favorita ao Oscar de 2018. Olhar para um Doug Jones (que interpretou a criatura) por baixo daquela fantasia e interagir com ele de forma verdadeira e tocante, sem proferir uma palavra, é de uma dificuldade quase inimaginável.

Sally Hawkins tomou para si um papel difícil com devoção admirável, que seria muito bem recompensada com a estatueta de Melhor Atriz no Oscar 2018.

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O elenco de apoio também está maravilhosamente dedicado. Octavia Spencer está bem como sempre, inovando pouco de outros papéis que já teve, mas continuando efetiva, apesar de que uma indicação para Melhor Atriz Coadjuvante pareça um pouco forçada. Michael Stuhlbarg é o Domnhall Gleeson do Oscar 2018 e está, mais uma vez, extremamente carismático. Comparando sua performance neste filme com as de "Me Chame Pelo Seu Nome" e "The Post", é possível perceber como ele está completamente diferente em cada um dos papéis. Richard Jenkins está maravilhoso como o vizinho e único verdadeiro amigo de Elisa, que junto à ela compartilha as dores de nunca ter alcançado nada na vida, além de ser o dono do único arco individual que realmente funciona. Michael Shannon interpreta um vilão intensamente ameaçador, mas que sofre um pouco por ter suas camadas sub-trabalhadas. Ele é um ator excepcional e aqui não é diferente, mas seu personagem possui bastante tempo em tela e poderia ter um desenvolvimento mais profundo. 

Tendo um elenco de peso como este e a orquestra sendo regida com maestria pelo visionário que a idealizou, seria difícil este filme não dar certo. A cinematografia, com vários tons de verde, faz clara alusão à imagens de baixo d'água e enaltece a sútil criação de mundo que acaba por se tornar poética. A direção de arte que cria este pequeno belo mundo ainda se beneficia da inteligente escolha da proporção de imagem 1.85:1, que não deixa barras pretas na tela da maioria dos cinemas, diferente da proporção favorita dos blockbusters atuais, a 2.35:1. O efeito da tela cheia e menos retangular no cinema é refrescante e, se nos permitido arriscar, talvez tenha sido escolhido pelo diretor para que a mesma remeta menos a uma tela e mais a uma janela, ou um aquário.  Suposições à parte, Elisa mora em cima de um cinema, o que reforça a ideia de que o filme é quase uma carta de amor à sétima arte.

Alexandre Desplat mostra, novamente, que conhece o ponto de equilíbrio na linha tênue entre uma trilha opressora e uma trilha sem personalidade.

A trilha musical, talvez o melhor trabalho da carreira de Alexandre Desplat (competindo com sua trilha para "The Grand Budapest Hotel") amplifica os momentos de tensão e os desvanece com facilidade, alternando entre melodias especulativas e de curiosidade ingênua e momentos de resolução permeados por doçura e romance. Além disso, Desplat entende o poder de trazer poucas canções externas: quando escutamos Glenn Miller, Carmen Miranda ou Madeleine Peyroux, é como se o filme nos desse um abraço e abrisse as portas para que o nosso mundo se misture com o de Elisa. 

A palavra-chave para toda a trilha sonora do longa é harmonia. É como água.

O ritmo se beneficia do inteligente e dinâmico jogo de câmeras, que não se apressa ou se arrasta demais, fazendo com que as duas horas passem voando. O próprio trabalho de maquiagem em cima da criatura e, auxiliado por um realce de efeitos especiais na medida certa, a tornam suficientemente real, mas ainda encantadoramente fantástica. 

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Todos estes elementos contribuem para o desenrolar da história, que apesar de ter diversos focos, alguns inclusive passíveis de exclusão ou encurtamento (a vida familiar do coronel Strickland, o esquema com os russos do Dr. Hoffsteller), giram em torno do tema principal, nunca desvirtuando o filme de seu principal objetivo. Há certa falta de originalidade na forma como a história, essa sim, um tanto original, é contada: o filme não surpreende no desenrolar da narrativa e dificilmente deve ficar na sua cabeça após seu fim.

"The Shape of Water" é mais como uma linda forma de passar duas horas do que algo para martelar por dias na sua cabeça. E não há nada de errado nisso. 

 

9

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