Crítica | Death Note da Netflix

Crítica | Death Note da Netflix

A Netflix entrou para a lista de produtoras que conseguiram estragar, completamente, a adaptação de uma das maiores obras da cultura japonesa. Este filme que chamam de "Death Note", é uma abominação e ofensa ao material fonte, e um fracasso completo como longa independente dele. 

"Death Note", a série de mangá/anime, é genial. Mesmo que o final seja levemente diferente entre os dois formatos, as questões morais e a inteligência durante toda a série são fora do comum, acima de praticamente qualquer série de fantasia, oriental ou ocidental. Aqui, além de desrespeitar todos os elementos que fizeram essa história tão sensacional, foram feitas escolhas inexplicáveis, como que para garantir o desprezo que o filme está recebendo. 

Vou listar aqui algumas das principais mudanças que a Netflix pensou que poderiam funcionar, e como elas se comparam ao que vemos no mangá/anime, spoilers moderados:

  1. O Light Yagami da obra original é um adolescente modelo, altamente inteligente, ótimo atleta e popular com todas as garotas de sua escola, e quando se depara com o Death Note seu primeiro impulso é questionar se deveria ou não utilizar o caderno e com que propósito, mas antes disso, se ele realmente é de verdade. Já o Light Turner, interpretado por Nat Wolf (da Naked Brothers Band), é um jovem impulsivo, esquisito, que tem como sua primeira atitude com o caderno matar um valentão da escola sem pensar nas consequências nem na imoralidade de tal ato. Algo que alguém inteligente, e teoricamente bom, jamais faria. 
  2. Mas tudo bem, pois ele é coagido à isso por Ryuk, o Deus da Morte (ou Shinigami) por trás do caderno, o qual não tem sua origem explicada, e diferentemente do material original, se envolve diretamente nas ações do portador humano. 
  3. Decidiram também criar uma jovem chamada Mia, uma psicopata que quer matar a todos desenfreadamente, e consegue controlar Light transformando o ato de matar criminosos em um entretenimento para seu namoro.   
  4. Decidiram também matar sua mãe a troco de uma das primeiras mortes ser a do assassino, mais uma famosa americanização da história. 
  5. Transformaram L, o detetive a cargo de encontrar Kira (nome dado ao responsável pelas mortes), de um jovem gênio, calmo e altamente cauteloso, em alguém desequilibrado emocionalmente, cheio de manias, e completamente impulsivo. Além do mais, o L original nunca apareceria em público.

E para aqueles que defendem o fato de o filme ser uma adaptação, o que se espera de uma adaptação, ainda mais em um outro país, é que se mantenha a essência da história, caso contrário não existem motivos para este filme se chamar "Death Note" e o nome de vários personagens permanecer o mesmo. E não é como se o longa funcionasse por conta própria também. A reação de Light ao encontrar um caderno que supostamente mata pessoas não condiz em nada com o pensamento que uma pessoa normal teria. Os diálogos são apressados, não há qualquer senso de realismo, e em momento algum a questão moral que o caderno deveria trazer é explorada aqui. O diretor, Adam Wingard, ainda decidiu transformar as mortes em flashbacks da série "Premonição", além de tornar o ato final uma bagunça, que tem apenas uma virtude, é histericamente engraçado, com música e cenas totalmente destoantes. 

Se qualquer coisa é positiva, fica a cargo da voz de Willem Dafoe como Ryuk, o mesmo não pode ser dito do CGI do Shinigami. Nat Wolf é um ator fraco, Margaret Qualley tem duas personalidades e nenhuma convence, e o resto do elenco está um pouco abaixo do operacional. Lakeith Stanfield, que por mais diferente que este L tenha ficado do original, é capaz de mostrar (alguma) parte de seu talento, mas ele não chega nem perto de salvar o filme ou a terrível releitura de um dos personagens mais inteligentes já criados. 

"Death Note" poderia ser um filme ruim caso o material fonte não fosse levado em conta, mas quando você tem uma obra prima para basear seu trabalho e não consegue fazer nada além de o que foi mostrado aqui, não pode esperar por uma recepção calorosa. 

Se você é fã da série, não precisa assistir essa "adaptação", ela é apenas mais um lembrete de como Hollywood tem profundo desrespeito, ou até medo, em retratar histórias que são infinitamente melhores que as criadas em terras americanas. Caso você nunca tenha ouvido falar de "Death Note"  e tenha se interessado pela história, por favor, esqueça um pouco o preconceito de estar assistindo um "desenho", ou lendo uma "revista em quadrinhos", e dê uma chance à obra original. 

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