Crítica | Blade Runner

Crítica | Blade Runner

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Há uma magia em "Blade Runner" que ecoa até hoje. Desde sua primeira tomada, onde vemos o horizonte de uma Los Angeles futurista, com luzes de prédios incomuns iluminando a noite escura e veículos voadores patrulhando os céus, até a textura da cidade que se movimenta lá embaixo, uma mistura de culturas que vemos apenas de relance, mas parecem parte tão vital daquele ambiente sujo e caótico que é como se conhecêssemos cada uma delas. Raras vezes, se alguma, um filme conseguiu fazer um mundo fictício ser tão real. 

E não é um mundo feliz, tão pouco próspero. Nele a humanidade evoluiu a ponto de criar clones exatos de seres humanos, os Replicants, que seriam utilizados como mão de obra escrava em territórios que fossem conquistados fora da Terra, e após um motim realizado em uma dessa colônias por um grupo de Replicants, sua presença no planeta foi proibida. Após quatro deles escaparem para a Terra, o Blade Runer, oficial responsável por encontrar, identificar e "aposentar" tais seres, chamado Rick Deckard é encarregado do serviço.

 

Mas Deckard não quer o serviço tanto quanto estes Replicants não querem morrer. Interpretado por Harrison Ford, ele está claramente deprimido, influenciado pelo mundo poeticamente distópico que se aglomera a sua volta e em momento algum tem prazer em qualquer coisa que realiza em sua vida. Sua história faz o filme se mover, mas não é exatamente o foco principal e sim as muitas questões que ela levanta. 

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Os diálogos raramente são explicativos e montar o cenário em que o filme acontece é uma tarefa maravilhosamente enigmática, com cada frase, visual e detalhe sendo altamente importantes. Na melhor das versões do filme (que teve quatro), lançada em 2007 como corte final, a narração de Ford foi excluída, o que diminui ainda mais nosso conhecimento sobre o mundo onde "Blade Runner" se passa, mas estranhamente nos conecta de forma mais profunda com ele.  

Em momento algum é necessário falar que a humanidade evoluiu a ponto de negligenciar a si mesma, ou falar em como a tecnologia não trouxe mais melhorias do que uma clara segregação que nem mesmo aparece no filme. Sabemos que animais de verdade são itens raríssimos, que certas pessoas podem ser selecionadas para saírem da Terra, que viagens interplanetárias são possíveis, e tudo isso por simples comentários. Los Angeles não tem nada da cidade iluminada que é hoje, as ruas são sujas, as pessoas se somam e se multiplicam, é uma cidade que carrega todo o peso da "evolução" que passou ao longo dos anos e exprime isso em cada detalhe.

É uma história que é contada mais pelo que se vê do que pelo que se é contado. 

A direção de Ridley Scott é evocativa, paciente, com movimentos sutis de câmeras e uma quantidade grande de cortes que nunca parecem fora do lugar. Raramente ele se utiliza de planos detalhe para focar em algum objeto ou tema específico, a tensão e o suspense crescente são atenuados justamente por podermos ver a cena acontecendo em meio à todos os cenários maravilhosamente construídos. Em certos momentos, se sabe aonde o perigo se encontra na tela, mesmo que o personagem ameaçado não saiba, e isso é agoniante. A trilha sonora de Vangelis, um dos precursores da música eletrônica, funciona em conjunto da cinematografia escura, com música clássica e pesados sintetizadores sendo partes orgânicas desse mundo quase repugnante, mas tão habitável que se torna convidativo. 

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E além de toda a caracterização, de todas as histórias não contadas, mas que fazem parte dessa narrativa, temos Deckard e sua caça aos androides, que em momento algum se torna gloriosa ou triunfante. Ele é apenas mais uma ferramenta do sistema, que sozinho move apenas uma parte das muitas engrenagens que fazem aquele mundo, governado por corporações, continuar a girar. A forma arrastada com que cada desenrolar da história acontece pode muito bem afastar boa parte do público, mas é essencial para o tom investigativo que movimenta o filme. Ford consegue mostrar toda a alienação e transtorno envoltos na psique de seu personagem, que traz pela falta de explicação sobre sua origem um dos maiores questionamentos da história do cinema, inteligentemente levantado de forma casual por Rachael, interpretada de forma excepcional por Roy Batty.   

Talvez o maior questionamento aqui seja uma das perguntas mais assombrosas que possamos nos perguntar. Afinal, o que é ser humano?

Mas mesmo excedendo em todas as escalas técnicas e em sua atmosfera, o forte deste filme talvez ainda esteja em seus personagens. Não é porque Ford é Han Solo, ou Indiana Jones, que aqui é tão herói como possa parecer. Também vemos o lado dos androides, que mesmo, individualmente, tendo pouco tempo em tela, aprofundam todos os valores e significados do que a palavra humano pode trazer. O casal composto por Roy e Pris, interpretados respectivamente por Rutger Hauer e Daryl Hannah tem uma relação de amor altamente reforçada pelas circunstâncias em que se encontram, mas possuem química e uma esperançosa vontade de viver semelhante.   

Contar mais sobre cada um seria privar qualquer pessoa que não tenha visto esse filme de uma experiência muito mais impactante, mas pode se dizer que toda a existência desses androides é resumida em um monólogo que eleva o longa a níveis além do que o cinema pode trazer. Talvez a melhor forma de resumir a principal mensagem que este filme passa seja citar a artista americana de Folk, Joan Baez: Você não pode escolher como ou quando morrer. Mas pode decidir como viver. 

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"Blade Runner" conta uma história de mistério e investigação, quase como apenas mais uma das muitas que poderiam ser contadas deste mundo fictício, que se aprofunda em camadas à cada vez que você examina novamente cada um de seus detalhes. Ridley Scott orquestra tudo com maestria, desde o sucinto e sombrio roteiro ao espetáculo visual, poucas vezes equiparado. Harrison Ford lidera um elenco excepcional que, justamente por dosar a dose de impressionismo, atinge tudo que deveria atingir. Um filme sobre tempo, evolução, memória, moralidade, amor, medo, esperança e, acima de tudo, buscar pela liberdade, seja o que for que ela signifique. 

10

 

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