Crítica | A Qualquer Custo

Crítica | A Qualquer Custo

Para muitas pessoas a principal qualidade de um filme é que logo quando ele acaba, você já quer assistir de novo. Entrar naquela história mais uma vez, mesmo que ela não seja agradável, as vezes não é um universo atraente, mas você quer parar por outras duas horas para fingir mais uma vez que tudo que acontece ali é real e está acontecendo diante de seus olhos. 'Hell or High Water' ou seu péssimo título traduzido 'À Qualquer Custo', é esse tipo de filme. 

Estamos em 2017, e os faroestes talvez sejam o gênero que mais tenham caído de popularidade, até mais do que os musicais (La La Land mandou abraços). É apenas complicado vender histórias passadas em cidades que, mesmo que existam, sejam esquecidas, e ainda fazer essas histórias lucrar mais do que guerras espaciais, super heróis, ou feel good movies. É ainda mais difícil trazer este gênero para a época em que vivemos e o fazê-lo funcionar. Talvez por isso 'Hell or High Water' seja ainda melhor do que realmente é, pois sabemos que vamos ter de esperar anos por outro em um nível parecido. Um exemplo? 'No Country For Old Men' foi a dez anos atrás. 

Aqui tudo começa com um assalto a banco, assunto comum em faroestes, onde Chris Pine e Ben Foster interpretam os irmãos Toby e Tanner Howard, que tem de pagar uma dívida deixada por sua mãe para que seu rancho não seja fechado. Os detetives Marcus Hamilton e Alberto Parker, interpretados por Jeff Bridges e Gil Birmingham respectivamente, estão no caso. Sim, o que você leu aqui não é nenhuma novidade. O bandido bom, o bandido ruim, o policial quase aposentado, o filme não sucede por tentar reconstruir a principal estética do gênero, mas sim por apresentar um aprofundado estudo em como a sociedade moldou cada um daqueles personagens.

Desde o começo o que mais se destaca é como a motivação de cada um deles é clara e compreensível, e como cada ator consegue com uma naturalidade assustadora adentrar fundo em suas personalidades. O roteiro do também ator, Taylor Sheridan, é explorador, e não precisa abusar de exposições para contar, durante os diálogos, pequenos fragmentos que enriquecem a história de cada um. Sempre que algo é revelado seu impacto é maior pela naturalidade com que cada assunto é tratado, e faz com que ao mesmo tempo se tenha mais repúdio e mais empatia com os irmãos bandidos. É uma ambiguidade crescente, que não te deixa torcer para nenhum dos lados, apenas magnetiza todas as atenções para cada novo desenrolar. Raramente há uma conversa ou fala irreal, desde os mais comuns diálogos cotidianos aos planos e ações de cada dupla, simples e bem pensados, sem precisar de conveniências absurdas, algo que infelizmente virou moda recentemente.

As cenas de ação são filmadas com o mesmo senso de dura realidade que o resto do filme, sem câmera lenta, excesso de sons ou sequências absurdas, o diretor David Mackenzie acerta muito nas tomadas longas e planos sequência. A cinematografia capta muito bem a aridez do oeste do Texas, sempre passando um sentimento de depressão em meio ao iminente senso de esquecimento que locais como esse provocam. A trilha sonora é muito bem utilizada, e a ausência dela deixa diversos diálogos e cenas mais impactantes. Por vezes o filme consegue ficar cínico e engraçado, por outras perigosamente comovente, é um trabalho muito bem controlado e arquitetado, que não faz questão em jogar sua mensagem descaradamente. 

As interpretações enriquecem o roteiro, dando mais graus de realismo e peso a história. Chris Pine consegue passar toda a confusão na cabeça de seu personagem, seu olhar é profundo, e entende-se muito por ele. Há uma falta de esperança nele em sair do tipo de vida em que está levando, e mesmo que a desaprove, parece ter aceitado aonde o destino o levou. Ben Foster está psicótico, seu olhar é insano, suas atitudes e ações energéticas e explosivas, mas ainda assim se percebe o laço que tem com seu irmão, o que culmina em uma cena forte e tocante em meio à toda a insanidade do ato final. Jeff Bridges não está fazendo nada muito diferente do comum de filmes de faroeste, é o velho detetive, prestes a se aposentar, mas seu carisma é irresistível. A vontade e o amor por sua profissão são visíveis, mesmo assim ele reconhece e aceita seu futuro. Suas interações com Gil Birmingham são cômicas, e o final de sua relação é cruel, mas provocadoramente triste.

A conclusão de cada um não é conjunta, e nem deixa de ser óbvia. Seu impacto está no senso de inevitabilidade, como se cada uma de suas escolhas só pudessem levar aquele destino. Bem ao final, Chris Pine e Jeff Bridges proporcionam o final mais digno possível para tudo que o filme explora. 

'Hell or High Water' é um dos melhores filmes do ano. Um filme forte, profundo, e que tem confiança e ambição o suficiente para não ter medo de explorar seus temas e história pesados. Seu elenco é excepcional, seu roteiro impecável, e sua direção nunca perde o controle e excede por conta própria. Suas mensagens e valores são mais difíceis de serem percebidos e entendidos, mas o estudo moral e social aqui é assustadoramente realístico e verossímil, e fazem de 'Hell or High Water' mais um marco para um gênero que dificilmente encontrará ao menos parte do seu antigo prestígio. E isso, para seu valor final é vital, sabe se lá quando teremos outro desses.

10

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