Crítica | Cães de Aluguel

Crítica | Cães de Aluguel

SPLIT.jpg

Quentin Tarantino. O ano era 1992 e ele fazia sua estreia com um longa metragem. No elenco alguns nomes conhecidos, mas nada de peso, de Samuel L. Jackson ou Uma Thurman. Harvey Keitel, no entanto estava lá, ele era o Mr. White. 

Logo na primeira cena somos apresentados à primeira das duas principais características de Tarantino nos anos a seguir. Oito homens estão sentados numa mesa, tomando café e comentando sobre o significado da letra de 'Like a Virgin', o clássico single da Madona. Depois eles discutem sobre se deve ou não dar a gorjeta para garçons e garçonetes. De que isso importa? De nada e de muito. Todos os diálogos em seus filmes querem dizer algo a mais do que apenas o que é dito, seja para deixar pistas sobre a índole dos personagens, ou apenas para introduzi-los. Por mais inúteis que possam parecer todos esses diálogos são tão reais e possíveis que nos sentimos magnetizados.

Tarantino, por sua vez é o Mr. Brown, que está mais do que convencido que entende o verdadeiro significado da música. Junto à ele na mesa estão os senhores Pink (Steve Buscemi), Orange (Tim Roth), Blonde (Michael Madsen) e Blue (Edward Bunker), seu chefe Joe Cabot (Lawrence Tierney) e seu filho Eddie Cabot (Chris Penn). Não podemos saber o nome de cada um, pois eles estão prestes a realizar um roubo e somos apresentados, por meio de fragmentos, à história do filme, de como Joe e Eddie reuniram cada um dos homens, e qual sua função no assalto. 

Outro aspecto, e talvez o mais incrível nos filmes de Tarantino seja sua falta de estrutura. Enquanto seria básico mostrar o assalto para prender a atenção por causa da ação, todos os eventos do filme se resumem à antes e depois dele, nunca durante. A forma como cada flashback conta a origem de todos os senhores funciona como um pedaço do filme fora de ordem, e não como um recurso barato e amarra tudo perfeitamente. A narrativa não é nada linear, a forma como o filme é dividido também não, mas a coesão é assombrosa.  

Ainda assim, o mais perceptível aqui é o que faria tanto sucesso futuramente. 'Pulp Fiction', 'Kill Bill', 'Bastardos Inglórios', todos possuem um grau de violência mais agudo, mas nenhum tão realista como na sua estreia.

SPLIT.jpg

Logo após vermos os oito homens saindo do bar onde tomavam café, os senhores White, Pink e Orange estão em um carro, fugindo da polícia, e um deles sangra perigosamente. Eles chegam ao galpão de encontro para esperar pelos outros senhores. Eles não podem ir à um hospital, não podem sair dali, e se esperarem mais, o Sr. Orange vai morrer. São poucos minutos até que outros membros cheguem ao balcão, mas a espera parece eterna, graças ao roteiro extremamente bem amarrado. 

No balcão vemos muitas coisas. A índole de cada um dos homens é mostrada, percebemos que há um sociopata, um psicopata, um traidor, e tudo isso é revelado pela forma como tratam um refém que é fortemente torturado. A brutalidade toma conta, e por vezes queremos desviar o olhar, mas temos medo de perder o menor dos acontecimentos que possa revirar a história. Somos apresentados à diversas possibilidades, fazemos deduções, e somos derrubados por outra reviravolta. Tarantino não precisa de muito mais do que um galpão, uma câmera na mão e o trabalho irrepreensível de seus atores para tornar 'Cães de Aluguel' um dos filmes mais envolventes de todos os tempos. O traidor é impossível de ser descoberto, e o quanto cada ator parece a vontade com seus personagens torna tudo ainda mais visceral. 

'Cães de Aluguel' é um filme simples, curto, brutal, e que por vezes nos pergunta se vale a pena ser visto. A final, algo mudou após os eventos do filme? Alguma mensagem nos foi passada? Essa história é realmente interessante para ser contada? Talvez a resposta para todas as perguntas seja não, mas a genialidade de Tarantino é tanta, e foi percebida tão cedo, que sua história duvidosa importa menos do que a forma como foi contada. Que filme maravilhoso. 

10

Crítica | Quero Ser John Malkovich

Crítica | Quero Ser John Malkovich

Crítica | A Qualquer Custo

Crítica | A Qualquer Custo