Crítica | Animais Noturnos

Crítica | Animais Noturnos

Tom Ford é uma daquelas pessoas. Mais conhecido por seu trabalho com a moda, ele mostra no seu segundo filme que consegue misturar seus talentos, criando um dos filmes mais simbólicos e inquietantes dos últimos anos. Damn it. 

'Nocturnal Animals' é um filme escrito e dirigido por Ford, baseado no livro de Austin Wright, 'Tony and Susan'. Aqui, Susan Morrow é uma mulher bem sucedida, mas infeliz que recebe notícias de seu ex-marido Edward, quando ele lhe envia um manuscrito de seu próximo livro. 

A primeira coisa a ser notada aqui é o estilo de toda a produção. O filme é dividido em três histórias, presente, passado e o conteúdo do livro, e a forma como Ford consegue flutuar em cada uma delas é essencial para o ritmo e a conexão simbólica que o filme provoca. A estilização do presente é sua característica mais marcante, cores fortes realçadas por uma cinematografia polida, é algo impactante, e há uma centralização sufocante em Amy Adams, fazendo um retrato mais do que profundo sobre como sucesso e felicidade podem ser coisas distintas. O passado é mostrado de forma mais confortável, devagar e por meio de diálogos longos, entrando para situar a ligação entre os acontecimentos da vida real e do livro, que é o ponto alto do longa. Nele Ford se abusa de uma hiper violência que nunca deixa de ser realista o suficiente para te deixar desconfortável e nervoso, as paisagens são mostradas de forma crua, e os cenários usados são o completo oposto do mundo artístico que vemos na "vida real". Os primeiros trinta minutos desse filme me deixaram mais engajados do que qualquer coisa desde 'Mad Max'. Nunca é exatamente claro qual das histórias virá a seguir, e mesmo que não se saiba exatamente como elas se encaixam no começo, a sensação de que são interligadas é assustadora.

Ainda mais importante do que a já brutal e magnetizante história que é contada é a forma como os elementos trabalham em cima dela. A cinematografia realça o tom, os cortes são precisos, e nunca é mostrado ou falado mais do que o necessário, somos convidados a desvendar os tantos segredos que essa narrativa sombria proporciona. Há pequenas coisas que te deixam pensando, e conforme suas ligações vão se revelando, a tensão aumenta. Prestem atenção no papel de Isla Fisher, e em um certo sofá vermelho, jogadas geniais. 

Amy Adams pode ser considerada a nova Leonardo DiCaprio, pois é absurdo como ela não foi indicada tanto por 'Animais Noturnos' como por 'Arrival'. Ela está inacreditável como Susan. É um trabalho complicado, que não é feito inteiramente por diálogos, ela se utiliza muito bem do roteiro e abusa do silêncio e trejeitos de sua personagem. Seu olhar possui uma tristeza profunda, de cortar a alma, o que contradiz a linda mulher que se esconde por trás de todo seu sucesso. É incrível como seu "par" em cena aparece propriamente em apenas uma das narrativas, e mesmo assim sua química é o suficiente para que sua ausência seja sentida. Jake Gyllenhaal faz um trabalho forte, e passa suas emoções com uma linguagem corporal característica do ator. Seus olhares e suas reações são carregadas, e há um forte senso de incerteza que parece estar constantemente em sua cabeça.

Dentre todos os filmes que vi esse ano, poucos tinham uma dupla de estrelas tão forte, mas ainda mais raro foi algum filme com uma dupla de coadjuvantes como a de Michael Shannon e Aaron Taylor Johnson. O primeiro está sensacional, dando à um personagem comum um charme irresistível, onde ele não precisa elevar o tom da voz para mostrar sua imposição, e é inevitável que em cenas tensas provocadas por ele você ria de tão absurdo é o que ele faz.. Já Johnson, que dá vida a um dos vilões mais sádicos e insanos do século 21, traz um olhar desprovido de qualquer senso de moral, sua visão sobre as coisas é desumana, e em momento algum há arrependimento ou qualquer traço de medo. Não fosse sua participação monstruosa, talvez o título do filme não fizesse tanto sentido. 

O único momento em que Ford peca é na construção do seu final, onde o filme perde boa parte do ritmo. As resoluções dentro da história ficcional se tornam mais previsíveis, há menos impacto, quase como se o filme precisasse economizar tempo. São uns dez, quinze minutos que poderiam ter sido melhor trabalhados, talvez até mesmo mudando levemente a ordem de acontecimentos do livro. Algo que é quase concertado no assombroso final, um daqueles que te faz querer mais e ficar pensando no que viria a seguir, mesmo sabendo que tudo acaba ali.

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'Animais Noturnos' é um filme visceral, absurdo, e perigosamente estiloso, que trabalha seus conceitos de forma sombria e magnetiza a todo momento para o centro de sua história e personagens. Seu elenco está totalmente comprometido, e seu diretor tira o melhor de uma história complexa, que retrata de forma obscura emoções tão profundas do ser humano e estigmas enraizados em nossa sociedade, fazendo deste um dos melhores Thrillers não feitos pelo David Fincher em muito tempo. É oficial, Tom Ford precisa tirar menos tempo de folga entre seus filmes. 

9.1

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