Crítica | O Grande Truque

Crítica | O Grande Truque

spl.jpg

Sir Michael Caine nos fala o seguinte logo na primeira cena:

"Todo grande truque de mágica possui três partes. A primeira é chamada de The Pledge. O mágico te mostra algo ordinário: um baralho de cartas, um pássaro ou um homem. Ele lhe mostra o objeto. Talvez lhe peça para inspecioná-lo para ver se é real de verdade, inalterado, normal. Mas é claro... provavelmente não é. O segundo ato é chamado The Turn. O mágico pega o objeto ordinário e faz algo extraordinário com ele. Agora você está procurando pelo segredo... mas não vai encontrá-lo, porque é claro você não está realmente procurando. Você não quer saber de verdade. Você quer ser enganado. Mas você não bate palmas ainda. Porque fazer algo desaparecer não é o suficiente: você tem que trazê-lo de volta. É por isso que toda mágica tem uma terceira parte, a parte que chamamos de The Prestige."

Está tudo aqui, mas mesmo assim, continuamos sem perceber.

"O Grande Truque" ou seu título original que precisava ser mantido, "The Prestige", é o quinto filme de Christopher Nolan e, baseado no livro de mesmo nome de Christopher Priest, mostra a história de dois mágicos de palco no final do século 19 em Londres que, com o objetivo de se derrotarem criativamente, embarcam em uma rivalidade obsessiva com consequências trágicas. 

Acho que fica claro após assistir a este filme que, para fazer um filme sobre mágica é necessário pensar como um mágico. Enquanto Michael Caine praticamente resume todo o trabalho de qualquer profissional desta área em seu excelente monólogo, é a mente perturbada de Cristopher Nolan que transveste todo o grande truque (piada intencional) que é essa história em um excelente filme de suspense. Do início ao fim o que assistimos é um truque sendo feito em nós mesmos e deveríamos estar cientes disso, pois todas as pistas foram entregadas a nós de forma limpa. Porém, um bom mágico está sempre muito a frente de sua platéia. 

Acima de tudo, "The Prestige" é um filme sobre a busca pela perfeição artística e como ela pode corromper o ser humano.

spl.jpg

Christopher Nolan sabe gravar uma cena. Não há sequer um momento que não pareça grandioso e extremamente necessário para o todo graças a sua habilidade descomunal de orquestrar todos os elementos a seu favor. A cinematografia fria, que sabe destacar o luxo e a sujeira da época onde a história se passa; a perfeita e detalhadamente habitável reconstrução de mundo que te transporta para uma era, que você só conhece por livros e filmes, como se você próprio a tivesse vivido; a trilha sonora que, apesar de não tão marcante como em outros projetos do diretor, amplifica ao máximo a atmosfera de suspense que a história passa. Ele participa de todos estes processos da produção e é claro, ao trabalhar com apenas uma unidade de câmeras, mantém controle total do que acontece em cada cena. 

E o dinamismo é de suma importância em um filme como esse. Assistir mágicas antigas, que atingiram seu auge de popularidade séculos atrás, poderia ser algo chato caso este fosse o enfoque, mas aqui o que realmente importa é a mente dos personagens que as realizam e como cada novo ato e técnica impulsiona uma pequena reviravolta em tudo que achamos que sabemos sobre esta história. As linhas de tempo se entrelaçam e você nunca espera que a próxima venha, pois está imerso na atual. É verdade que isso pode te deixar confuso por um bom tempo, mas é proposital. 

Claro, ajuda ter um elenco estelar como o que Nolan tem em mãos aqui. Nunca vi Michael Caine atuar algo menos do que ótimo, Scarlett Johansson já mostrava todo seu talento mais de uma década atrás e ver David Bowie como Nikola Tesla foi um dos maiores prazeres que tive assistindo a um filme na vida. Porém são o Wolverine e o Batman que tomam conta das nossas atenções. É estranho dizer, mas ambos conseguem demonstrar uma química intensa quase sem aparecerem juntos em cena, como se as ações de um sempre refletissem no estado de espírito do outro. 

spl.jpg

Mas, este é um filme do diretor mais enganador de todos os tempos, e se você estiver tentado a acreditar que "The Prestige" é uma obra prima, re-assista-o quantas vezes puder. Nunca uma cena de Nolan vai parecer mal feita, nunca uma história vai parecer pouco relevante, nunca um desfecho vai deixar de ser impactante. E enquanto boa parte do filme é sim feita com maestria, é inegável levantar dúvidas quanto ao final. Chocante, inesperado, talvez inesquecível, mas se pode dizer tranquilamente que é, assim como a maioria dos truques, uma trapaça. Porém, falar mais que isso seria entregar spoilers. 

Excedendo tecnicamente e contando uma história deliciosamente complexa, é mais um filme de Christopher Nolan que deve te marcar, mesmo que não seja tão lembrado como outras obras do diretor. "The Prestige", assim como um bom truque de mágica, vai te deixar fascinado. 

9

Crítica | As Herdeiras

Crítica | As Herdeiras

Crítica | Te Peguei

Crítica | Te Peguei