Crítica | Spotlight

Crítica | Spotlight

Spotlight é um daqueles casos raros. Um filme que provavelmente vá ser recheado de nomeações e indicações aos mais variados prêmios, e que pode justamente sair sem levar nada, exceto o mais cobiçado e aquele que seria um erro ficar sem.

Tom McCarthy conseguiu transformar Spotlight em um filme difícil e arrastado, parado em sua grande parte, mas que não deixa de passar informação e construir a obra final em momento algum. Baseado no escândalo de pedofilia envolvendo a igreja católica na cidade de Boston em 2003, o assunto do filme não é diminuído nem aumentado, e é visto de dentro da rotina do grupo de profissionais que o investigaram. Há sempre algo acontecendo, um diálogo esclarecedor, uma nova entrevista, um novo acusado, uma nova vítima, uma nova informação. Diversos empecilhos para uma resolução conjunta, que não se apoia em grandes cenas para entregar qualquer tipo de clímax.

As interpretações, todas excelentes e lideradas pela seriedade de Michael Keaton, e pela emotividade e entrega de Mark Ruffallo contam também com uma performance calculada de forma delicada por Rachel MacAdams, nunca muito exagerada ou precisando de expressões fortes para expressar o que sente, mas deixando uma vulnerabilidade e realidade para seu papel dignas de todos os elogios. Stanlley Tucci, está ótimo como sempre, e de forma acanhada e modesta demonstra um pouco da loucura que seu trabalho com as vítimas de abuso sexual pode provocar e é mais uma peça para a construção geral do problema. John Slattery e Liev Schreiber impressionam pelo trabalho conciso apesar do pequeno tempo de tela, e a escolha de atores menos conhecidos para representar as poucas vítimas e padres representados foi um grande acerto, afinal o objetivo não é tirar a atenção da obra como um todo. 

O jogo de câmeras de McCarthy flui muito bem com o roteiro, escrito de forma extremamente concisa por ele e por John Singer. O filme nunca perde o ritmo, mesmo com o assunto pesado, as trocas de cenas são inteligentes e nunca cortam abruptamente para uma outra situação. Nunca é dado muito enfoque à uma atividade em si, e a linguagem corporal geral é muito bem utilizada por cada ator, dando quase uma ideia de documentário de tão realista a abordagem. A caracterização a época não é tão marcante, sendo que 2001 não é uma época muito distante no quesito visual, o desvio de atenções após a queda das torres gêmeas funciona para situar melhor os espectadores, e cai de forma natural, sem parar ou tirar o foco principal do roteiro, que continua da mesma forma bem montada que antes.

Tudo em ‘Spotlight’ foi feito sem a intenção de impressionar, de chocar ou de torcer a cabeça do espectador. O filme nunca se desvia de seu objetivo principal, e as grandes revelações e surpresas do filme estão nas informações que lhe são passadas. Uma obra minuciosamente construída, que funciona como um quebra-cabeças onde todas as peças encaixam perfeitamente, ‘Spotlight’ é sem dúvidas o principal candidato à todos os prêmios de melhor filme do ano que possa receber, e merece todos eles. O melhor filme de jornalismo desde Todos os Homens do Presidente, e um dos melhores (se não o melhor) filmes a moda antiga da década.

10

Crítica | Perdido em Marte

Crítica | Perdido em Marte

Crítica | Moonlight

Crítica | Moonlight