Crítica | Fragmentado

Crítica | Fragmentado

Escrito, dirigido e produzido por M. Night Shyamalan. Essa frase virou até piada nos últimos anos, depois de filmes como 'Fim dos Tempos', 'Depois da Terra' e a abominável adaptação de um dos melhores desenhos animados dos últimos anos em 'O Último Mestre do Ar'. Em 'Split', ele se redime.

Com seu personagem, e não sua história, baseada no caso real de um homem com diversas personalidades (Billy Milligan seu nome), o mesmo que será interpretado por Leonardo DiCaprio em um filme que deve rendê-lo uma indicação a Melhor Ator no futuro. Aqui James McAvoy interpreta Kevin Wendell Crumb, um homem com 23 personalidades distintas que rapta três garotas e as prende em um local isolado. Lideradas por Anya Taylor-Joy como Casey Cooke, elas devem entender seu sequestrador para tentar escapar. 

Shyamalan sempre gostou de filmes fora do comum, e esse é outro exemplo. Em momento algum a história indica ser sobre algo sobrenatural, mas ele faz com que o jogo de câmeras e a própria cinematografia, que abusa no enfoque de rostos, sempre sugiram que há algo a mais por trás disso. Ele se utiliza muito bem de todos os cenários, ocupando os de forma que revelam mais detalhes sobre a história sem que isso seja explícito, mas nunca ficam realistas o suficiente para se perder o tom quase absurdista que o longa provoca.

Ele se preocupou em não perder tempo e instala a ideia principal do filme logo em sua primeira cena, e isso compensa muito, pois a história em si já é interessante o suficiente sem precisar de qualquer introdução. O ritmo é calculado, e apesar de as coisas acontecerem lentamente dentro do curto período de tempo do filme, não existem cenas paradas ou que te desviem do interesse provocado pela história central. Há um forte senso de curiosidade, e até mesmo uma apreensão que fica além da experiência cinematográfica, quando o roteiro tenta explicar a condição mental do personagem de McAvoy. Não há uma tensão constante, e fora uma cena de Jumpscare, raramente o filme dá medo. O que fica é um forte interesse em saber o que acontece a seguir, com cada um de seus três principais atores adicionando ainda mais camadas para a história.

McAvoy está simplesmente espetacular, me chamem de louco, mas sua atuação aqui perde para apenas dois dos últimos indicados à Oscar de Melhor Ator. Suas expressões faciais mudam drasticamente de personalidade para personalidade, e de forma tão súbita que se esquece completamente de seus trabalhos passados. Ele entra perfeitamente em cada uma delas, utilizando trejeitos, o modo de falar, a voz e a excelente linguagem corporal. É um trabalho assustador, que é coroado com um final enervante, quando a 24ª personalidade aparece (O momento Smeagle é sensacional). Shyamalan foi inteligente em colocar como contra ponto uma personagem inteligente em Casey, abrilhantada pelo talento de Taylor-Joy, e que não precisaria dos incômodos e desnecessários Flashbacks para que seu sofrimento passado fosse contado. Também foi inteligente em deixar com Betty Buckley o papel da psiquiatra de Kevin, a qual passa uma relação quase fraterna com ele e protagoniza fortes jogos psicológicos, que quase atingem a tensão que o filme "falha" em não provocar. 

 Quando você percebe uma boa atuação só pela foto

Quando você percebe uma boa atuação só pela foto

Se existem falhas aqui é difícil dizer, pois talvez tudo tenha saído como Shyamalan planejava. Existem algumas inconsistências de ritmo, o filme se desenrola em três cenários diferentes, algo que funciona, mas a falta de momentos altos de tensão o deixa um tanto homogêneo. O ato final eleva o nível de absurdismo ao extremo, mas conta com seus atores para manter o alto padrão. Os diálogos raramente são esticados mais do que o necessário para que suas ideias sejam passadas, algo que impede o filme de ser mais profundo, e a própria forma como a condição de Kevin é tratada "deveria" ser mais delicada, mas de novo, Shyamalan fez tudo do jeito que queria. Principalmente no final, o qual encerra o filme afirmando diversas suposições que podem ser feitas desde os minutos iniciais. 

A força de 'Fragmentado' não está em sua tensão ou suspense, e sim em seu senso de curiosidade que é construído logo cedo e prende sua atenção do começo ao fim. McAvoy está simplesmente extraordinário e Anya Taylor-Joy se prova uma das jovens atrizes mais talentosas por aí, e ambos ajudam Shyamalan a encontrar o caminho da glória. Vamos esperar pelo número três. 

8.5

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