Crítica | The Post: A Guerra Secreta

Crítica | The Post: A Guerra Secreta

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"The Post" retrata a história de jornalistas do The Washington Post que lutaram para publicar informações sobre o envolvimento do governo norte americano na guerra do Vietnã. Com quantos limões se faz uma limonada? Aqui temos alguns.

Steven Spielberg e Tom Hanks fazem uma das duplas mais infalíveis da história do cinema, com filmes como "O Resgate do Soldado Ryan", "Prenda-me Se For Capaz", "O Terminal" e recentemente "Ponte de Espiões" em sua lista de parcerias. Some à isso a maior atriz de todos os tempos, Meryl Streep, a trilha sonora de John Williams, o roteiro de John Singer, de "Spotlight", a cinematografia de Janusz Kaminski, vencedor de dois Oscar em outros trabalhos com Spielberg, e um elenco de apoio extremamente talentoso e o resultado é um dos melhores filmes do ano. 

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Uma das grandes qualidades de Spielberg é transformar histórias reais em atrações cinematográficas com todas as camadas de glamour e entretenimento possíveis. Diferente de outros filmes de jornalismo, como o próprio "Spotlight", de 2015, "The Post" não é parado e tão pouco realista em excesso. A construção dos anos 70 é sútil, com praticamente todos os momentos do filme sendo tratados dentro de casas e redações de jornal e com a utilização de figurinos que continuam comuns até hoje. O trabalho de câmeras dinâmico e eficaz de Spielberg, aliado a exuberante trilha de John Williams, transforma pequenos acontecimentos em momentos grandiosos, como se a descoberta de novos fatos fosse equivalente à uma batalha vencida por um super herói. Embora o primeiro ato seja um pouco solto e demore para encaixar, no momento que as engrenagens começam a rodar é impossível se desprender da tela. 

Os diálogos foram excepcionalmente bem escritos e abrilhantados por um elenco dedicado e muito bem escalado. Bruce Greenwood, Bod Odenkirk e Michael Stuhulbarg, apesar de aparecerem poucas vezes no filme, estão idênticos às figuras reais que representam (Robert McNamara, Ben Bagdikian e Abe Rosenthal). Sarah Paulson domina perfeitamente suas poucas cenas e a dupla Bradley Whitford e David Cross são coadjuvantes de luxo. É claro que suas participações são essenciais, mas o brilho está na dupla de diamantes que Spielberg reuniu. 

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Não se surpreendam com outra indicação para Meryl Streep, que no papel de Katharine Graham, a responsável pelo The Washington Post durante os eventos do filme, brilha mais uma vez. Ela consegue passar todas as inseguranças de sua personagem, que para se provar digna de um cargo que fora herdado, precisa enfrentar, com toda sua vontade e determinação, o machismo de  um ambiente em que somente homens costumavam frequentar. Hanks, por sua vez, mesmo não tendo um grande momento que lhe exigisse elevar o nível de interpretação, passa muito bem a imagem de um editor chefe apressado, impulsivo e que parece realmente colocar a notícia acima do próprio bem estar. Como se já não bastasse, Spielberg nos dá de presente uma cena de alguns minutos, sem cortes, da dupla conversando com uma naturalidade e imersão impossível para qualquer mortal. 

A única coisa que segura o filme em relação aos pontos mais altos da carreira de Spielberg (pontos esses que ele tem de sobra) é a falta de impacto dos acontecimentos. A história sendo desvendada ali foi um escândalo gigantesco e, apesar de sentirmos empatia pela dupla principal, não é como se o peso daquelas revelações chocassem ou representassem o que deveriam. Comparando novamente com "Spotlight", que consegue chocar o público com os fatos descobertos no filme, "The Post" mostra com maestria o trabalho jornalístico, mas por focar demais nele acaba deixando a parte humana um tanto de lado. É um filme que acaba não se preocupando em ser marcante, o que pode diminuir seu valor com o tempo. 

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"The Post" é o segundo grande filme sobre jornalismo em três anos e outro trabalho de Spielberg que acerta em mostrar outras faces da guerra. É uma aula de atuação, direção e roteiro que mostra que, quando os limões são bem colhidos, é quase impossível que a limonada não seja boa. 

8.8

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