Crítica | O Cavaleiro das Trevas

Crítica | O Cavaleiro das Trevas

Por qual motivo gostamos tanto do Batman? 

Constantemente considerado o maior super herói do planeta ao lado do Super-Homem, e seguidos de perto pelo Homem-Aranha, o Homem-Morcego não tem super poderes, não usa cores chamativas, não é conhecido pelo seu humor, ou por ser um exemplo para os outros. E talvez seja exatamente por tudo isso. Se a grande maioria dos super heróis lutam pela luz, O Cavaleiro das Trevas dorme durante ela, justamente para preservá-la. 

Diferente dos outros filmes do gênero, a trilogia de Nolan liga pouco para o CGI. Se preocupa ainda menos com cenas brilhosas e visualmente bonitas, ou em conquistar seu telespectador com piadas e cenas de ação gigantescas. Se utilizando primordialmente de efeitos práticos, a escala aqui é humana, o realismo é o mais próximo do que aconteceria se tudo aquilo que vemos realmente existisse. As cenas de perseguição, a impactante cena da destruição do hospital, as lutas, tudo é tratado de forma tão real que podemos quase acreditar que aqueles na tela habitam o mesmo mundo que nós. 

Mas essa escolha de acreditar se mostra infundada quando o roteiro, assinado por Nolan e David S. Goyer, nos mostra uma cidade triste, escura e prestes a sucumbir ao caos. É um mundo que existe, mas que não vemos, ou preferimos não ver, e o único motivo de sermos cego para ele, no filme, é por causa do Cavaleiro das Trevas. Ele não está lutando contra uma ameaça alienígena, ele está lutando pela cidade e por seus habitantes, sem se incomodar em ser visto de forma duvidosa por eles. A maneira como o filme retrata ele tanto como herói quanto vigilante é essencial para o desenrolar da história. E a ambiguidade moral que ele próprio vive é explorada à fundo, com escolhas duvidosas acerca de suas ações e métodos de combate ao crime. 

É justamente essa construção de personagem que torna este filme ainda melhor que seu antecessor. Se espera de uma sequência que ela aprofunde e trabalhe os temas anteriores, dando novas camadas à seus personagens, e isso acontece plenamente aqui. Tanto antigos personagens como o Albert de Michael Caine, o tenente Gordon de Gary Oldman e até a própria Rachel que passou por uma troca de atrizes, tem seus papéis no filme elevados direta e indiretamente. O Harvey Dent de Aaron Eckhart, e sua transformação no Duas Caras é a forma perfeita de como se adicionar um vilão sem superpopular o longa com eles. Vemos sua ascensão e queda, desde a glória à uma enervante e agoniante entrega à vingança. 

E é claro, um herói só se torna realmente interessante caso tenha alguém para desafiá-lo. O Coringa pode não ter superpoderes, ter sofrido qualquer acidente químico (no caso deste filme), ou ter a intenção de se vingar do herói por qualquer motivo. Seu único objetivo é ver aquele mundo horrível pegar fogo, o exato oposto de Batman, que não importa o quão podre este mundo seja, ele quer salvá-lo. E a única forma de interpretar esse, que é um dos melhores personagens já criados, talvez seria se entregar a sua loucura. Infelizmente foi isso que Heath Ledger fez. É uma performance além do genial. Cada olhar, fala, os trejeito, o jeito de andar, em momento algum ali vemos o ator, e sim um homem psicótico, com um prazer sádico pelo caos que não teme absolutamente nada. 

Nolan entendeu e trabalhou essa antítese provocada pela justiça e a desordem da melhor forma possível, e sempre quando Batman e Coringa estão na mesma cena vemos o ápice do gênero de super herói. Pegue como exemplo a cena do interrogamento. Sem efeitos, sem luta, apenas o embate entre dois lados completamente opostos, e até mesmo quando eles estão separados o encanto não diminui. Você torce e quer que o Batman o pare, mas sempre que o Coringa está em tela é como se fosse o seu filme, e tanto a direção como o roteiro contribuem para isso. Seus planos são arquitetados sem necessitar de conveniências, e as decisões que precisam ser tomadas para que eles possam ser evitados levantam questões morais e éticas extremamente relevantes. Um herói não existe sem um bom vilão, e é isso que esse filme retrata de forma melhor que todos os outros antes e depois dele. 

"Batman: O Cavaleiro das Trevas" assumiu, ainda em 2008, o posto de melhor filme de super herói de todos os tempos por que se preocupou em não ser apenas isso. Um filme policial, um thriller sobre o crime e a máfia, além de uma espetacular investigação moral sobre nossa sociedade, que a todo momento questiona todos os lados da justiça e o que é preciso para exercê-la. Um trabalho atemporal, e que pode ser apreciado por qualquer pessoa. Batman é o herói favorito de muitos, inclusive o meu, e esse filme mostra o por quê.   

10

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