Crítica | Super Mario Bros. - O Filme
A Nostalgia do cinema-nostalgia
O “cinema-nostalgia”, “cinema propriedade intelectual” é algo que se consolidou em Hollywood, mas poucas vezes apareceu como em “Super Mario Bros.”.
Para começar: existem duas maneiras de assistir a esse filme: é um festival de referências sem sentido e sem graça a uma franquia de mais de quarenta anos com um número incontável de jogos e materiais extras (aliás, quando começou o filme eu achava que conhecia Mario mas me dei conta que joguei muito pouco na vida, ou pelo menos deixa essa impressão) e nesse sentido é realmente algo completamente vazio, quase um material extra que viria em um DVD. Mas há outra coisa acontecendo em “Super Mario Bros.”: ele é, também, uma homenagem aos filmes de aventura hollywoodianos dos anos 80, virando a própria nostalgia do avesso e trabalhando com a época em que os jogos e o personagem foram lançados. Esse aspecto que pretendo comentar mais porque acho mais interessante.
Mario é um encanador que junto com seu irmão, Luigi, tenta trabalhar no Brooklyn, apesar da reprovação de sua família por terem começado o próprio negócio. Um dia, tentando provar suas qualidades, ele acaba entrando em um mundo mágico que corre grande perigo, lá ele se une a uma Princesa para salvarem Luigi e todo Reino dos Cogumelos. A estrutura homem trabalhador com problemas profissionais e familiares que escapa para um mundo mágico onde precisa provar suas capacidades é a chave aqui, um gênero que já foi muito popular (inclusive nos anos 80) e hoje praticamente desapareceu, ironicamente engolido pelos filmes de propriedade intelectual, e é ligado a essa nostalgia narrativa que o roteiro de “Super Mario Bros.” tenta contar sua história.
Não é só com Mario e Luigi que os diretores tentam nos transportar para os anos 1980, as cenas na Terra contam com videogames arcade e com um Brooklyn dominado por imigrantes italianos (apesar de ser um mundo que coexiste com smartphones), também a trilha sonora traz Bestie Boys, AC/DC e “Take on me” do a-ha. O protagonista não precisa aprender nada para resolver os problemas do mundo que descobre, a não ser as mecânicas próprias desse mundo (as mesmas dos jogos do Mario), e temos uma estrutura exata de um jogo de video game, cada cena uma nova fase que mecanicamente dá lugar a outra e depois a outra (não tem tanta graça quando não é a gente jogando). Alguns desses momentos são mais divertidos que outros, a fase que Mario precisa aprender as regras do mapa junto com a Princesa é ok e em que ele joga Mario Kart é lenta e sem energia até para um filme desse tipo de franquia, sem dúvida o pior momento dos menos de 90 minutos de aventura.
“Super Mario Bros.” é um filme com uma proposta nítida e e razoavelmente interessante, com cenas divertidas, animação que traz texturas muito realistas sem tentar se passar por realidade, tudo isso enquanto tenta reproduzir mecânicas e elementos de uma franquia que para mim não é muito nostálgica. Ele é, mais do que tudo, inofensivo, há muito em jogo para a produtora que pode firmar um contrato para várias sequências com a Nintendo caso dê bilheteria e por isso não tenta fazer nada além do que já se tem certeza que funciona, mesmo com os diretores sendo responsáveis pela inovadora série “Teen titans go!” e eles demonstram algumas ideias próprias que no contexto de um filme infantil feito para adultos de maneira industrial são bem-vindas.