#BEYOND: Arte & Pós-Humanismo de Stockhausen e McQueen

#BEYOND: Arte & Pós-Humanismo de Stockhausen e McQueen

#BEYOND “Gesang Der Jünglinge” : a música de Stockhausen como passado e futuro da adoção estética ao pós-humano exposta por Alexander McQueen em “Plato’s Atlantis”


Resumo

Este artigo tem como objetivo correlacionar duas obras de arte, de diferentes áreas e diferentes épocas, como representações do mesmo movimento de adoção da estética – e do ser humano - à união do biológico com o artificial. Se “Gesang Der Jünglinge”, música de Stockhausen, é um dos primeiros atos musicais que une tais universos, a coleção de McQueen é inegavelmente um grande exemplo de como esta relação já está consolidada, não somente na estética, mas no imaginário humano.

INTRODUÇÃO

Para onde estamos indo, de um ponto de vista evolutivo, como pessoas e como sociedade? Como nosso passado reflete no nosso futuro, e como ele pode servir até mesmo como metáfora e previsão para o que virá daqui para frente?

Tais perguntas não têm resposta exata, porém, muitos de nós, tentamos respondê-las. Alguns, com estudos científicos, outros, com filosofia, e outros ainda com a arte. Neste artigo vou me debruçar justamente sobre a última forma citada: a arte.

Com auxílio do pensamento filosófico e estético, vou analisar duas obras, de diferentes épocas e diferentes artistas, que podem ser correlacionadas no mesmo eixo de pensamento. Cada uma, à sua maneira, representa um pouco da relação que nós, humanos, temos com a tecnologia, e ao representar isso com arte, não só os artistas passam essa mensagem reflexiva, como também inovam do ponto de vista estético, ao trabalhar este tema de evolução de maneira não vista antes do século XX.

As obras que irei correlacionar são de diferentes áreas da arte: uma é da música e outra é da moda. Karlheinz Stockhausen, com sua composição musical eletrônica chamada “Gesang Der Jünglinge” e Alexander McQueen com sua coleção de moda chamada “Plato’s Atlantis”.

STOCKHAUSEN

No início dos anos 50, os maiores feitos tecnológicos do homem a serem celebrados, e amplamente aderidos, eram a televisão e os aviões a jato. As televisões, agora podiam levar mais informação, mais longe e em menos tempo, e os aviões a jato, agora podiam fazer o mesmo por seus passageiros. É seguro dizer que, em tal contexto histórico, não eram muitas as pessoas que vislumbravam um futuro em que a tecnologia e o ser humano se aproximariam como hoje, em 2016, percebemos que nos aproximamos. Nos anos 50, o mais próximo de homem fundido com a máquina que tínhamos era simplesmente alguém levando um relógio consigo. Hoje, temos máquinas em nossos bolsos, pulsos, e dentro de nossos corpos.

Karlheinz Stockhausen, jovem músico alemão, nascido em 1928, talvez não sonhasse ou previsse essa integração que hoje vivemos também, como não seria de se estranhar dada a época. No entanto, experimentando com música, tecnologia e diversos materiais, produziu obras que seriam uma espécie de premeditação, em forma de arte, da futura união do homem e da máquina.

Stockhausen trabalhara com música desde a juventude, sendo que aos 19 anos, em 1947, começou a estudar pedagogia da música e piano. Durante os primeiros anos, não teve interesse particular em composição musical, porém, ao iniciar estudos em 1950 com o compositor suíço Frank Martin, começou a compor. Daí em diante, composição tornou-se uma prática do seu cotidiano. Contudo, muitas das aulas que frequentava começaram a frustrar o jovem, que buscava ir mais longe com sua música e via-se estagnado junto ao conservadorismo de alguns dos docentes.

Somente em 1953 o artista encontraria uma nova fonte de inspiração. Mudou-se de Paris para Cologne, e lá foi contratado como assistente de Herbert Eimert no recém-inaugurado Electronic Music Studio of Nordwestdeutscher Rundfunk (NWDR), um dos primeiros estúdios focados em música eletrônica do mundo.

A partir daí Stockhausen passa a trabalhar com outros tipos de música, explorando áreas não vistas por ele antes e que ultrapassavam a música erudita ou popular da época. É nesse estúdio que vai aprender a criar novas estéticas musicais e é nesse estúdio que vai compor obras extremamente inovadoras, inventivas, e aclamadíssimas por décadas a frente.

O músico alemão já foi citado como influência por inúmeros artistas populares. Citando exemplos, podemos falar de Thom Yorke, Pink Floyd, Björk, entre outros.

Eu me lembro de estar sentada no seu estúdio em Cologne, rodeada por 12 alto-falantes, ele criando uma corrente que viajava acima e abaixo, um turbilhão à nossa volta como a força da natureza que é a eletricidade, minhas entranhas pulsando ao barulho – primitivo, moderno e futurista. Ele celebrava o som do som. [...] agora o século 21 já começou, e Karlheinz estava certo, as coisas estão ótimas, nós estamos nos comunicando quase telepaticamente, é claro (como ele profetizou), e as escolas de música mudaram, dando mais espaço às frescas mentes jovens que estão compondo música em computadores. Eu olho ao meu redor, escuto os estrondos e barulhos e todo tipo de música que está sendo feita hoje por jovens, e sinto que ele não estava tão longe disso. Ele sabia. (BJÖRK, 2010)

Dentre seus inúmeros trabalhos, vamos abordar Gesang Der Jünglinge, sua oitava composição no estúdio NWDR, feita entre 1955 e 1965, e considerada por muitos a primeira obra de arte da música eletrônica. A música contém somente 4 elementos: tons senóides gerados eletronicamente, pulsos e “clicks” gerados eletronicamente, ruídos e gravações orgânicas eletronicamente filtradas e a voz de um garoto de 12 anos chamado Josef Protschka.

Em tradução direta, Gesang Der Jünglinge significa “canto dos jovens”, e refere-se ao relato bíblico no livro de Daniel. Nessa história, é contado que Nabucodonosor joga três jovens, Hananias, Misael e Azarias, na fornalha ardente, após estes se recusarem a adorar um ídolo, e que eles, depois de rezarem e serem salvos por um anjo dentro da fornalha, escaparam ilesos.

Este conto é o que, originalmente, foi gravado pelo jovem Josef Protschka, responsável pelos vocais da música. No entanto, pouco é compreensível ao longo da maior parte da obra. A voz de Josef é completamente desconstruída por Stockhausen, que a une aos outros elementos e materiais, criando uma atmosfera muito abstrata.

Com duração de 13 minutos e 8 segundos, não é uma música feita para agradar os ouvidos alheios. A obra, uma peça extremamente experimental e habilmente autêntica, é descrita por alguns como perturbadora, bizarra, e até assustadora.

Porém, aqui pretendo me deter ao que ela representa para a arte e o ser humano. A maioria das formas de arte até então prendiam-se fundamentalmente ao orgânico: música ao vivo, em instrumentos, ou gravada no vinil; a pintura; o teatro; a fotografia; o cinema e até mesmo a televisão, que, apesar de veiculada por um meio tecnológico, apresentava imagens de coisas e pessoas como elas são. Alguns filmes já abordavam temas de ficção científica, mas eram poucos – e estes, em sua maioria, o faziam de maneira fantasiosa. Stockhausen quebra este paradigma ao apresentar Gesang Der Jünglinge, uma obra em que a voz humana funde-se completamente a elementos digitais e eletrônicos, passando ao ouvinte a sensação que esta união é algo genuinamente uno (sensação esta que, pelo som, transmite realismo mais facilmente do que a imagem, principalmente em um período em que os efeitos visuais ainda eram pouco desenvolvidos).

A obra, como sendo uma das primeiras experiências do gênero, revela muito sobre o artista, e também sobre o homem, ao fazer contato com a tecnologia. Mesmo que esta tenha sido profundamente pensada e calculada, Stockhausen nos passa uma forte ideia de intuição. Como se fosse uma criança brincando com sons e ruídos, encaminha os elementos a uma ordem alegórica que, estranhamente, exibe coesão. Não coesão musical, mas uma coesão que pode ser descrita como científica. Uma união estranha, que parece funcionar.

Aí, então, entra o canto dos três jovens. No final da música, que teve a voz do garoto contando a história bíblica de maneira desconstruída ao longo de todos os seus 13 minutos, há um pulsar grave na marca dos 12 minutos e 50 segundos. Com a voz mais longe, ele parece dar uma conclusão a música. Porém, nos segundos finais, um suspiro de elementos sonoros que remetem à água e uma breve confusão são a deixa de que a evolução que toda a obra retratou não acabou: parece ter sido concluída para uma próxima etapa. Da mesma maneira que os três jovens escaparam da fornalha, e da mesma maneira que, dez anos antes da composição do alemão, a II Guerra findava, livrando milhões de pessoas das câmaras de gás (fornalhas ardentes?) da Alemanha nazista.

Podemos interpretar, então, Gesang Der Jünglinge como a metamorfose do homem junto à máquina, e esta metamorfose, como um processo doloroso na visão de Stockhausen. No entanto, um processo que tem uma “conclusão”, ou ao menos, a conclusão de um de seus ciclos. Partindo dessa premissa, podemos analisar como essa temática foi abordada no século XXI no trabalho de Alexander McQueen.

MCQUEEN

Em 2010, então, outra obra, de outra vertente estética, abordaria tal assunto em uma rica reflexão. O estilista Alexander McQueen, em sua coleção Plato’s Atlantis, usa a história de Atlântida, de Platão, como metáfora para o sucumbir da nossa existência analógica para uma nova forma de vida.

A história do reino de Atlântida é vastamente conhecida na nossa cultura, tendo se disseminado por mais de 10000 obras, de acordo com estimativas, desde que foi apresentada por Platão. O que foi contado pelo filósofo grego é, resumidamente, o seguinte: Atlântida era uma grande e poderosa potência naval em aproximadamente 9600 a.C., que, após uma tentativa fracassada de invadir Atenas, afundou no oceano em um único dia e uma única noite.

Na Antiguidade e na Idade Média, o conto nunca foi levado a sério ou considerado muito relevante culturalmente, mas, na Idade Moderna, a história foi redescoberta pelos humanistas, e desde então, vastamente reestudada e explorada em diversos campos das artes e do entretenimento.

A coleção de McQueen, nomeada “Plato’s Atlantis”, que significa, em tradução direta, “A Atlântida de Platão”, é uma releitura e reinterpretação dessa história. Não somente isso, mas além: utiliza ela como referência e metáfora para, na sua arte, expor o processo de “afundar” na tecnologia que estamos vivendo.

Para compreender esse raciocínio, é preciso analisar cada parte do desfile. A primeira coisa a ser observada é o protagonismo das câmeras. Como em nenhum outro desfile de McQueen antes, e de maneira incomum para qualquer desfile, as câmeras são posicionadas com destaque, no meio do palco. Além disso, a abertura do desfile tem um vídeo que mescla elementos abstratos, industriais e azulados com cenas do corpo da modelo Raquel Zimmerman com cobras. Enquanto o vídeo é exibido, as câmeras não ficam paradas: “dançam” em seus trilhos pelo palco como se observassem o espaço e a plateia. Até aí, já temos, na abertura por si só, muito dito. O humano dominando o que era antes predador, enquanto a máquina divide protagonismo com ele.

Após isso, entram as modelos, e se inicia o desfile. São 46 peças, e cada uma delas traz uma ideia e reflete um período da humanidade. Podemos observar como estes períodos mudam ao longo da obra, que é o desfile e a coleção como um todo.

As primeiras peças trazem estampas que remetem ao couro, animais reptilianos, tons de verde e amarelo queimado predominantes. Há uma dureza no andar das modelos, enquanto os adornos parecem pesar no corpo. Aos poucos, aparecem verdes mais vívidos e estampas que dialogam mais com aspectos florais. Esta introdução pode ser vista como a representação do período humano mais analógico e primitivo, podendo ser relacionada à pré-história.

Na primeira transição, vêm, então, cores mais quentes, e a entrada do dourado. Adornos em volta do pescoço, das pernas e a introdução das bolsas e ombreiras marcam a adesão do humano a elementos extracorpóreos. Algumas das ideias visuais aplicadas por McQueen aqui podem ser relacionadas com a estética do antigo Império Egípcio, e então, parecem tirar inspiração da escuridão da baixa Idade Média em tons de verde musgo com adornos pesadíssimos.

Uma segunda transição apresenta peças que tem divisões bem marcadas entre um lado claro e um lado escuro, como se o estilista expusesse as discussões, guerras e batalhas que se deram no mundo entre a Idade Média e a Guerra Fria, onde se deu o ápice de um embate ideológico. Embate esse, que teve como vencedor o capitalismo. Tal vitória é representada por peças que abraçam totalmente o dourado, agora brilhante, como se tentasse superar o que já fora visto no dourado da época do Império Egípcio.

Temos então, uma mudança na luz do palco e na música ao entrar de duas modelos na passarela. Tons azuis as preenchem, desde a roupa, à iluminação, passando pela maquiagem. Elas representam a quebra do período atual para o futuro. Aqui, fica representado o afundar da nossa sociedade como até então a tivemos.

Tudo até ali representou cada etapa do desenvolvimento de nossa humanidade, e McQueen fez questão de trazer a cada época os diversos elementos que nós usamos do mundo para nosso próprio desenvolvimento. Fossem animais, plantas ou minerais. Inevitavelmente, isso teria retorno. O aquecimento global desenfreado traz consequências cada vez mais nocivas ao seu próprio causador, o homem, assim como às diversas formas de vida. Uma delas, sendo o derretimento mais rápido de calotas polares, e o subir do nível do mar. Aí temos nossa Atlântida.

A passarela se esvazia por alguns instantes, e uma terceira modelo entra confirmando o encaminhamento do desfile à representação de uma nova era. Era em que nós teremos que nos adaptar

Agora temos tons de azul, cabelos não mais soltos, mas extremamente rígidos em penteados que apontam para cima. Os adornos não estão mais presentes como peso, pois as modelos se movem de forma fluída, mesmo quando eles estão presentes. Se fazem agora partes do todo, e não parecem atrapalhar a locomoção. Os cortes são mais ajustados e as estampas, assim como alguns detalhes das vestimentas, remetem às ondas do mar e às guelras dos peixes, como simbolismo para a metamorfose que nós, humanos, tivemos que nos submeter junto à tecnologia para sobrevivermos.

Já na nova era, ocorre a introdução do cinza e de materiais que remetem às algas. Há uma composição híbrida então, em que o pós-humano mistura a sua nova biologia, muito mais andrógina, com aspectos mais industriais.

Logo após, nos é apresentado, finalmente o preto. Suavemente ajustado ao corpo das modelos, representa o luto por um ser humano que não existe mais, e que fora totalmente substituído pelo animal que evoluiu e se fundiu à tecnologia para sobreviver.

O penúltimo período apresentado por McQueen mescla estampas, azuis e vermelhos presentes no novo período em diversas peças, que também incluem o cinza industrial nos sapatos. A maquiagem do rosto já não indica qualquer diferenciação entre gêneros, e novamente, os adornos não parecem afetar em nada a fluidez do movimento das modelos: são como parte do corpo delas.

No último período da coleção, as peças apresentam o final desta evolução. Com muito branco, claridade, luz, transparência e brilho, McQueen traz o ser humano completamente envolto na sua vestimenta, num estágio de androginia total ao trazer, inclusive, modelos com os seios expostos. A última peça traz, como não poderia ser diferente, uma modelo completamente vestida, com pouco do corpo a mostra, em um traje prateado. É a adesão total do corpo e do ser humano à nossa eterna representação semiótica de futurismo: a cor prata, aqui apresentada como o simbolismo final para a tecnologia unida ao corpo.

CONCLUSÃO       

Duas obras distantes na forma, mas que retratam, cada uma à sua maneira, o mesmo prelúdio de futuro. A obra de Stockhausen é mais densa, experimental e alegórica, pois se trata do início dessa relação entre homem e máquina: tanto no âmbito artístico, quanto na união destes para formação de um ser somente. A obra de McQueen, por sua vez, já leva a temática a outro nível. O artista não vê mais essa união como uma possibilidade em um futuro hipotético, e sim como uma realidade num futuro breve.

Contudo, ambos tratam em suas obras, não do final, mas do processo que proporciona chegarmos ao pós-humano: em Gesang Der Jünglinge, Stockhausen cria diversas combinações e modulações ao longo de 12 minutos até nos dar a impressão de finalização com um pulso grave, e depois concluir a faixa com um suspiro de continuação; em Plato’s Atlantis, McQueen nos apresenta todo um histórico da relação do humano com o mundo externo até chegar a incorporação de alguns desses elementos externos ao próprio corpo. As conclusões são breves, e o intrigante é o processo.

Existem aspectos que diferenciam as obras. McQueen, ao produzir sua coleção nos anos 2000 e lançá-la em 2010, já tem uma ideia muito clara de como a tecnologia e o homem passaram a se relacionar na contemporaneidade. Stockhausen não tinha como prever o futuro em 1955, entretanto, produziu um trabalho que pode ser facilmente associado à conclusão de McQueen em Plato’s Atlantis e à visão do estilista do pós-humano. Tal coincidência pode ser relacionada à curiosidade humana e como ela é demonstrada toda vez que entramos em contato com algo substancialmente novo, e, no caso de Stockhausen, também pode ser relacionada a como nossas reações instintivas com essas novidades podem ser premonições da relação que nós, humanos, e tais tecnologias, podemos vir a ter.

Dito isso, podemos concluir que as duas obras dizem muito sobre a humanidade, sua relação com o extracorpóreo, e sobre como essa relação tem evoluído perante os humanos e, a partir disso, evoluído na representação estética que nós fazemos de nós mesmos. Gesang Der Jünglinge, ao ser uma declaração ecoante do primitivo momento em que começa uma interação nunca dantes vista entre homem e máquina, também é um prelúdio do mesmo futuro que McQueen prevê com Plato’s Atlantis em 2010.

Além de todas as razões já discutidas, podemos refletir sobre mais uma para Stockhausen ter batizado sua obra a partir do conto sobre três jovens na fornalha ardente. Talvez, em 1955, ele já suspeitasse que apenas o que se ouve dos jovens na fornalha seria o que vai restar de humano no futuro da nossa humanidade.


Artigo escrito por Bernardo Liz, para a disciplina de Estética da PUCRS, ministrada pelo professor Ronel Alberti da Rosa.
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