Grammy's So White

Grammy's So White

Ano após ano, evento após evento, assisto aos Grammys na esperança de que talvez eles consigam acertar, que a música tenha uma premiação organizada, de prestígio, que tanto merece, ano após ano espero que pelo menos o melhor álbum indicado leve o Grammy de álbum do ano, não sei por que ainda não parei. 

E garanto que não sou só eu. Até agora, pelo menos uma mão cheias de artistas (Kendrick Lamar, Solange, Win Butler, Diplo, a própria Adele) e uma legião de fãs já foram a público questionar mais uma decisão que não foi apenas errada, mas preconceituosa, racista e completamente incompetente. 

O primeiro fato que deve ser superado é aquele de que dos cinco álbuns ali, apenas um merecia realmente estar. Para citar alguns, Blonde, The Life of Pablo, Coloring Book, Blackstar, A Moon Shaped Pool, A Seat at The Table, foram grandes sucessos e extremamente aclamados pela crítica, mas completamente esnobados. 'Purpose' é no máximo decente, 'Views' o pior álbum do Drake, 'A Sailor's Guide to Earth' entrou apenas pela "variedade" de gêneros, e '25' um álbum composto de Hits + Fillers, sem nada de novo, que fosse cantado por alguém menos do que a segunda melhor cantora do mundo (ontem ficou bem claro quem é a melhor) não mereceria nem ser ouvido. Mas todos estavam lá, acima de trabalhos conceituais, que retrataram o duro ano de 2016 a sua maneira, e ainda conquistaram o público que deve ficar com eles a longo prazo, não como os acima citados que logo não vão mais ser ouvidos. 

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E os erros começaram mais cedo do que o esperado. 'Views', que dificilmente foi um dos cinco melhores álbuns de Rap do ano, foi o único indicado para álbum do ano, e perdeu na categoria de Rap para 'Coloring Book', lógica pra que? 'Hotline Bling' (um single excelente, não me entendam mal) foi caracterizada como uma música de Rap, sendo que Drake não faz nenhum verso nela. 'Hello' foi indicada e ganhou gravação do ano, que é dado para os produtores, sendo que sua parte instrumental quase não faz diferença em meio a voz de Adele. 'A Seat at The Table' não foi indicado para nenhuma categoria, seja álbum de R&B ou Urban Contemporary.

E então chegamos ao momento principal, quando 'Hello' ganha dois Grammys que não deveria ter sido indicada, e '25' derruba 'Lemonade'. O problema nisso? É que 'Lemonade' é um álbum visionário, lançado junto a um especial visual espetacular, que mistura gêneros, influências e conceitos extremamente importantes da sociedade de hoje, mostra como é a vida de uma mulher negra nos Estados Unidos, tudo isso enquanto é a narrativa da história de quase separação de uma mulher e seu marido. Pergunte a qualquer crítico, músico, artista, 'Lemonade' é melhor que '25' em toda sua duração.

A pior parte disso tudo, é que os votantes sabem disso, mas deixam suas faltas de valores falarem mais alto. Não existem meias palavras aqui, há um claro e forte racismo, e um preconceito tão grande quanto para com qualquer música que se associe ao Hip-Hop, e eles realmente não ligam para as reclamações. Apenas eu falando pode parecer imparcial, então abaixo listo os casos das últimas cinco premiações antes dessa, em negrito álbuns de artistas negros, em branco, os de artistas brancos. Foram usados como parâmetro o site Metacritic, que coleta críticas profissionais e gera uma nota agregada, e a publicação Pazz & Jop, que desde os anos 70 conta com diversos críticos e procura listar os melhores álbuns e singles de cada ano.

2012 - 'My Beautiful Dark Twisted Fantasy' de Kanye West recebe uma nota agregada de 94 no Metacritic, lidera a Pazz & Jop com a maior margem na história da pesquisa, fica no topo da maioria das listas de fim de ano e vende mais de um milhão de cópias. Não foi nem indicado. O vencedor deste ano, '21' da Adele, com nota de 79 no mesmo site e a sétima posição na pesquisa de 2012.

2013 - 'Channel Orange' de Frank Ocean recebe nota agregada de 92, lidera a Pazz & Jop de 2012, vende mais de 500 mil cópias. O vencedor desde ano foi 'Babel' da banda Mumford and Sounds, com nota agregada de 63. 

2014 - 'Good Kid Maad City' de Kendrick Lamar, com nota agregada de 91, ficou em segundo da Pazz & Jop de 2012, perdeu todas as categorias de Rap para Macklemore e Ryan Lewis, com seu álbum 'The Heist' e uma nota de 74. 'Yeezus' de Kanye West ficou em primeiro lugar na pesquisa de 2013, não foi nem indicado á álbum do ano. Neste ano, Daft Punk levou o maior prêmio, o único dentre todos os mencionados com argumentos válidos.

2015 - 'Beyoncé' de Beyoncé perde para Beck e 'Morning Phase', que teve tanto uma nota menor (85 a 81), como vendeu dez vezes menos. 

2016 - Kendrick Lamar com 'To Pimp a Butterfly' atinge uma nota de 96, fica no topo da Pazz & Jop de 2015, tem várias de suas músicas cantadas nos protestos da 'Black Lives Matter', e perde para '1989' da Taylor Swift, com uma nota de 76 e a sétima posição na mesma pesquisa em 2014. 'Black Messiah' de D'angelo ficou no topo da pesquisa em 2014, e não foi ao menos indicado.

*Nota-se que existem álbuns de anos diferentes em cada premiação, pois o período de elegibilidade do Grammy é de setembro a setembro, outro de seus métodos duvidosos.

Para ser ainda mais exato, apenas dez artistas negros ganharam o prêmio, e o último a ganhar foi Herbie Hancock, em 2008. Os únicos álbum de Hip-Hop a ganhar, mesmo com mais de 30 anos de existência, foram 'Speakerboxxx / The Love Below' do Outkast em 2004 e 'The Miseducation of Lauryn Hill' em 1999. Utilizando-se de exemplos ainda mais recentes, Kanye West possui 21 Grammys, mas nenhuma vitória sobre qualquer artista branco, quase o mesmo caso de Jay-Z, que também possui 21 e em poucas ocasiões superou algum artista branco. É claro, no caso de Taylor Swift contra Kendrick Lamar se pode usar o argumento da popularidade, mas e no caso de Beyoncé e Beck, qual foi o argumento?  

Levando em comparação com o Oscar, que sofreu fortes críticas no ano passado pela ausência de negros, o Grammy deveria sofrer um boicote ainda mais severo, pois a quantidade de artistas negros que fazem música é consideravelmente maior que a de atores negros em Hollywood. E o fato da cor realmente não deveria importar, caso nos últimos cinco anos os melhores álbuns feitos não tivessem sido, por consenso crítico e popular, de artistas negros. Ninguém poderia reclamar caso David Bowie e 'Blackstar' ganhassem esse ano, foi um trabalho ambicioso de um artista excepcional, que foi por muitos considerado o melhor do ano. Mas, é claro, ele não foi ao menos indicado. E não se precisa realmente ouvir todos os álbuns para se ter uma ideia disso, apenas reveja as performances de Beyoncé e Adele, qual delas foi mais marcante, qual delas se esforçou mais em dar um verdadeiro espetáculo, transformar sua música em arte visual no momento em que ela deve ser transformada? 

Mas não há esperança de mudança, ela foi completamente esmagada nesses últimos dois anos, onde duas boas artistas, não tiraremos seu mérito, que já haviam recebido o prêmio anteriormente, lançaram trabalhos sem nenhuma ambição ou qualidade indiscutível e derrotaram obras primas que revolucionaram seus gêneros e são retratos da nossa sociedade atual. Para muitos, músicas sobre ex-namorados são mais importantes do que hinos que protestam contra a injustiça no planeta, para os executivos que votam no Grammy no entanto, o que realmente importa é a cor de quem as canta. Tudo bem, Adele pode ter dividido seu prêmio com Beyoncé, mas a atitude certa seria uma vaia, seria um boicote, e ela mesma nem subir ao palco. Odeie o quanto quiser, mas Kanye West nunca foi tão necessário. 

Os Grammys são a pior premiação de uma temporada que é cheia delas. Desorganizado, sem rumo, e cada vez mais preconceituoso e sem vontade de mudança. Que mais artistas decidam não submeter seus álbuns para a consideração como Frank Ocean fez esse ano, vão apenas evitar mais injustiças. E para nós, resta esperar que uma forma de arte tão importante comece a ser levada a sério. Até lá, provavelmente vamos tentar ano após ano, mesmo que apenas para nos decepcionar novamente.

#BEYOND: Arte & Pós-Humanismo de Stockhausen e McQueen

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